Dizer que o português é a língua oficial da Guiné-Bissau esconde uma importante realidade: a de que essa língua é falada fluentemente apenas por cerca de 20% da população do país. Na prática, o idioma dos guineenses é o kriol (crioulo guineense), a língua franca que permite a comunicação em um país com uma grande variedade de línguas étnicas.

Cartaz do preservativo "Panté", o mais popular da Guiné-Bissau. "Kau di bindi" significa "Local de venda".

Como o crioulo é uma língua essencialmente oral, a grafia das palavras varia de acordo com o convencionado por cada linguista (ou cada pessoa, na prática). Além disso, como o idioma ensinado na escola é o português (apesar de o kriol ser reconhecido oficialmente), os registros escritos normalmente estão nessa língua. As propagandas, com o objetivo de atingir o maior número de pessoas, inclusive as que são alfabetizadas mas não falam bem o português, são uma exceção. A ONU também utiliza o crioulo nas suas publicações educativas, como cartazes e histórias em quadrinhos. Uma delas, passada a nós por nosso professor de crioulo, falava de Tony Rabada, um gibi de prevenção à SIDA (AIDS) de um homem “que não podia ficar um dia sem mulher, senão ficava louco”.

Cartaz da ONU, em português e crioulo, sobre os Objetivos do Milênio

A comunicação, porém, não é tão difícil quanto pode parecer. Os mais jovens em geral – por terem tido maior acesso à escola – entendem e falam o português. Além disso, o kriol se assemelha muito ao português oral do Brasil, como no corte do “r” dos verbos e da troca dos “e” e “o” finais por “i” e “u”, respectivamente. Assim, “de” é “di” e “com” é “ku” (palavra que também serve como “e”). “Para” é “pa”. Em alguns casos, é possível até dizer que o crioulo é uma versão simplificada do português: não tem artigos, gênero ou plural (embora, por influência do português, essas duas coisas já estejam começando a aparecer nas conversas) e os verbos não têm uma conjugação tão complexa, por exemplo. Mas o léxico é praticamente igual, apenas escrito e falado de uma forma diferente.

A literatura guineense é quase toda escrita em português, como mostra esse poema de Vasco Cabral, um dos poetas da época da independência (mais uma indicação da Nayara, consultora de assuntos culturais):

ANTI-DELAÇÃO
 A noite veio,
disfarçada em dia,
e ofereceu-me a luz,
diáfana como a Aurora.
 
Mas eu disse que não.
 
Depois veio a serpente
disfarçada em virgem
e ofereceu-me os seios e os braços nus.
 
Mas eu disse que não.
 
Por fim veio Pilatos,
disfarçado em Cristo,
e numa voz humana e doce
disse: “se quiseres eu dou-te o paraíso
mas conta a tua historia…”
 
Mas eu disse que não,
que não, não, não!
 
E continuei um Homem!
E eles continuaram 
os abutres do medo e do silêncio.

"Outdoor" de prevenção à SIDA, em português

Com relação à pronúncia, as vogais do kriol são bem anasaladas e a pronúncia das consoantes é mais parecida com a do português europeu. É o caso do “l” final – que, no Brasil, tem som de “u” -, do “s” chiado, “r” bem forte (como no Sul do Brasil) e do “di” e “ti”, que não são ditos como “dji” e “tchi”, como nós fazemos. O vocabulário também está mais para o europeu, como nas palavras “sumo” (suco), “rato” (mouse) e “rapariga” (moça).

Estudando crioulo, consegui entender melhor como uma língua consegue refletir a cultura dos seus falantes. Endender a lógica do crioulo guineense ajuda a entender o próprio país. Pode ser que eu esteja falando uma grande besteira, mas tenho a impressão que os guineenses (e os africanos, de uma forma geral) têm uma relação muito mais forte com o sensorial que os europeus. Acho que isso pode ser ilustrado pelo fato de que o kriol tem advérbios de intensidade específicos para alguns adjetivos: “branku fandan”, “pretu nok”, “burmedju uak”,”kenti uit”, “limpu pus”… Por outro lado, não existe, por exemplo, uma palavra equivalente e a “amar”. O mais próximo de “Eu te amo” seria “N’ gosta di bu” (“Gosto de você”). Acho que esse costume de sublimar os sentimentos foi algo que nós, brasileiros, ganhamos dos europeus.

No contato com estrangeiros, a língua mais utilizada é o francês e não o inglês, como no Brasil. Nas escolas guineenses em geral, as duas línguas são ensinadas, mas o domínio é da primeira, tanto pelo fato de a Guiné-Bissau estar entre dois países francófonos (a Guiné e, principalmente, o Senegal, que é a potência regional) quanto pelo fato de a África sofrer uma influência cultural muito mais forte dos europeus que dos americanos. Além disso, o francês é a língua franca da ONU, que traz gente de toda parte do mundo para o país.

Falando nisso – e fugindo um pouco do assunto -, descobri que o padrão de teclado francês é muito diferente do nosso, até mesmo na posição das letras. Quando tive que utilizar um, demorei pelo menos três vezes o tempo que demoraria para digitar um parágrafo, com o agravante de ter que fazer todos os acentos agudos pelo Inserir > Símbolo do Word…

Voltando ao crioulo – e para terminar esse post -, escrevi algumas frases só para dar uma ideia de como a língua funciona. Embaixo disso, copiei o Pai Nosso em kriol, retirado de um dos poucos livros didáticos sobre a língua, escrito por um missionário católico.

Kuma ki bu nome? Qual é o seu nome?
Nha nome Leonardo. Meu nome é Leonardo.

Kuma ki bu sta? / Kuma ki bu sta di kurpu? Como vai?
Sta bem. / Kurpu sta drito. Tudo bem.

Kuma ki bu mansi? Como amanheceu? (muito usado de manhã)
Mansi drito. Amanheci bem.

No Pape ku sta na seu,
pa bu nomi santifikadu,
pa bu renu bin,
pa bu vontadi fasidu
na tera suma na seu.
Partinu aos no pon di kada dia,
purdanu no pekadus
suma ke no purda kilis ki iaranu,
ka bu disanu kai na tentason
ma libranu di mal. Amen.

Curso
Há três semanas, eu e os outros cinco estagiários iniciamos nosso curso de crioulo no Centro Cultural Brasil-Guiné-Bissau. As aulas, terças e quartas, das 18h às 19h, estão sendo muito interessantes e divertidas, principalmente quando temos que aprender a falar os (vários) sons que não existem no português. Lembra muito aquela cena do “Bamburger” no filme “A pantera cor-de-rosa”… Apesar disso, estamos aprendendo bastante rápido e já avançamos bastante. Com mais algumas aulas e a prática no cotidiano acredito que vamos conseguir nos comunicar bem.

Crioulos
A existência do crioulo, como uma língua mista entre as línguas locais e do colonizador, é uma realidade em boa parte dos países africanos. Pouca gente sabe, mas o Brasil também tinha uma espécie de crioulo, o “nheengatu”, mistura do tupi e do português que era a língua mais falada no país até o fim do século XVIII. Atualmente, é ainda língua oficial na cidade de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. A Wikipédia pode dizer mais: http://pt.wikipedia.org/wiki/Nheengatu

O futuro do crioulo guineense
A cada dia, o crioulo vem recebendo mais influências do português, como no plural e no gênero, que começam a ser inseridos na fala do kriol. O jeito de falar e o vocabulário do português brasileiro também estão começando a influenciar os guineenses, através das novelas da Record Internacional e do grande número de guineenses que vão fazer faculdade no Brasil e retornam. Com o aumento do acesso à escola e a difusão da televisão e da internet, a tendência é que o português passe a ocupar cada vez mais espaço. Imagino que, com o passar dos anos, deve se consolidar um português guineense (assim como o português brasileiro acabou se consolidando como uma variedade própria da língua). Mas isso é apenas uma impressão minha…

Desculpas
Depois de ofender os antropólogos, decidi achar que sou linguista também. Conto com a Adriana para me corrigir…