Saudades de Bissau

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Faz exatamente cinco semanas desde a última vez em que escrevi aqui, correndo para fazer as malas, ainda anestesiado, sem conseguir pensar direito no que estava deixando para trás. Na correria, não vi meu último pôr do sol em Bissau. Não consegui ir ao lugar em que, de cima do hotel, via que a cidade terminava abruptamente. Não fiz a última refeição que estávamos planejando há semanas. Nem o tão esperado passeio de domingo em Bissau Velho.

Também não consegui chamar o Aliu, um menino engraxate sorridente que sempre fazia questão de me lembrar, na maior cara de pau, que o meu tênis estava sujo. E que inventou um truque fenomenal para que eu não esquecesse mais o nome dele, dizendo que nossos nomes eram parecidos, brincando, com o sorriso largo de sempre “Léo-Aliu-Léo-Aliu-Léo-Aliu…” Há três meses prometia para ele que, antes de voltar para casa, deixaria ele, finalmente, limpar meus tênis. Mas não consegui. Acabei ficando não só com o tênis sujo, como também sem nenhuma lembrança daquele meu amigo das ruas de Bissau.

Mas é claro que uma despedida corrida não é capaz de minimizar uma vivência de três meses. E três meses intensamente vividos, cheio de alegrias, surpresas, momentos de stress, crises de saudades, medo das coisas que eu conhecia, aprendizado, novos amigos e amigas, nos quais descobri que o mundo é muito maior do que eu imaginava. Que, apesar de pizza e Coca-Cola serem universais, cultura não é, de forma alguma, coisa de pouca importância. E pude ter noção de quanta coisa carrego comigo, das quais não posso fugir: um jeito de falar, de me vestir, de me relacionar com os outros e, mais do que tudo, o lugar de onde olho o mundo.

Profissionalmente, tive a minha primeira experiência direta trabalhando diretamente com o Estado, enxergando a burocracia “por dentro” e vendo como é difícil se lembrar o tempo todo de que ela não é o fim, mas o meio do meu trabalho. No fim, acho que me saí bem. Todas as contas foram aprovadas (pelo menos até agora), acho que deixei a casa arrumada para quem me sucedeu e passei em um difícil teste de controle psicológico e resiliência emocional, que é preencher documentos no meio dos corredores estreitos do mercado do Pindiquiti, mochila nas costas, debaixo da chuva, com um monte de gente passando de um lado para o outro. Também posso dizer com orgulho que o projeto não se atrasou um minuto sequer por causa de burocracia. E, se agora tenho certeza de que trabalho burocrático não é a minha praia, também estou certo de que saí – não só pessoal, mas profissionalmente – muito mais maduro.

Voltei com a noção de que vivo no que é provavelmente o país mais contraditório do mundo. Nossa história tem muito pouco de heróico, a miscigenação que nos faz tão especiais foi, em boa parte, resultado da violência, nossa cordialidade acaba disfarçando – e naturalizando – uma desigualdade de renda e de direitos desumana e irracional. Muita gente me pergunta se não foi triste ver tanta pobreza (palavra que deve ser a primeira que vem a cabeça da maior parte das pessoas quando se fala em África). Não nego que realmente me deparei com uma pobreza que nunca tinha visto antes. Mas, durante todo esse tempo, não vi nada mais degradante do que um barraco de beira de córrego, a rotina de um mendigo ou a vida em um cortiço em uma região decadente em qualquer grande cidade brasileira.

Apesar de tudo isso, tenho a certeza que ser brasileiro é, a cada dia mais, uma responsabilidade, não só com meu país, mas com o mundo. Não fui o primeiro a dizer o quanto o Brasil inspira as pessoas lá fora, apesar de todos os problemas. Espero que possamos mostrar, cada vez mais, que é possível ser grande “sem perder a ternura”. E que saibamos valorizar mais nossos irmãos africanos, dentro e fora do Brasil.

Dar essa volta pelo mundo também me fez voltar com uma grande vontade de conhecer o Brasil com “s”. Meu Brasil é muito pequeno, não tem estradas de terra nem casinhas de barro. É um “Brazil”, com “z” que parece a cada dia mais incompleto. Conhecer o Brasil de verdade é o plano para as próximas férias.

E, falando em planos para o futuro, decidi largar um pouco esse negócio de planejar no longo-prazo. Afinal, em questão de semanas você pode descobrir que vai passar três meses do outro lado do oceano, os quais vão fazer você repensar cada detalhe da sua forma de agir e de ver o mundo. Meu maior plano agora é continuar fazendo as coisas que fazem sentido para mim, que me fazem sentir útil e importante para os outros. É o que venho tentando fazer já há algum tempo. E até agora parece que vem dando certo…

Escrever isso me fez lembrar do momento em que descobri que tinha sido selecionado para o estágio. Da alegria da Mikha, o transtorno orgulhoso do Bruno, as brincadeiras dos amigos, o besteirol da lista de e-mails, a preocupação da minha mãe, o incentivo do meu pai, as recomendações da madrinha, a festa de despedida as dicas da Nayara, o companheirismo da Adriana, me acompanhando até o outro lado da cidade para tomar as vacinas, e todos os gestos e palavras das várias pessoas que, à sua maneira, estiveram torcendo por mim. De todos que acompanharam as fotos no Facebook e os posts no blog. A todas essas pessoas, muito obrigado! Tudo isso foi muito importante, acho que mais do que elas podem imaginar.

Por meio desse post, vou fechando esse blog que foi a melhor forma que encontrei para compartilhar um pouco do que vivi nesses últimos meses. Tudo que está escrito aqui não é 10% do que foi essa experiência. Em boa parte, por falta de tempo de escrever, mas, principalmente, porque não é possível passar a maior parte das coisas por escrito. Às vezes nem vale a pena. Minha Guiné-Bissau não são só narrativas, curiosidades, reflexões. Tem o cheiro de caju, o som do djembé, a visão da multidão colorida, a poeira das ruas, a profundidade os olhares, o afeto dos sorrisos, o carinho gratuito das crianças, as centenas de gestos de generosidade o tempo todo. Coisas que, para quem viveu, são muito mais do que podem parecer.

Guiné-Bissau é hoje para mim muito mais do que um dos cinco países mais pobres do mundo. Na verdade, é muita coisa ANTES disso. É a casa de amigos, um lugar que me fez menos “rapasinho” e mais “omi garandi” e que me ensinou a ser humano como jamais tinha me sentido. Como nas várias vezes em que chegávamos na comunidade e as crianças saiam correndo atrás do carro, chamando nosso nome, com uma alegria verdadeira pela nossa chegada. Lembro especialmente da primeira vez em que isso aconteceu, quando o Mérli – o menino mais brigão que eu conheci por lá – saiu correndo com a rodinha que ele gostava de rodar ali por perto do terreno da escola, tentando chegar antes do carro e chamando o “Lhéw”, que tinha brincado com ele no fim de semana anterior. Mais uma dessas coisas que nos fazem indescritivelmente felizes. Agora as batidas dos djembés não são só o som de tambores. São lembranças, cheiros, histórias, sensações… É um pedaço da minha Guiné, cheia de mistérios e de grandes problemas, mas também de sorrisos e gestos amigos. A Guiné que me fez feliz. Como já diz a sabedoria popular: “Guiné i sabi”.

Lembro que, no meu último dia em Bissau, vi uma família de americanos chegando no hotel, algo muito estranho de se ver por lá. Quando passei por eles e vi todas as malas, os aparelhos tecnológicos, o jeito de turista explorando a tão lendária “África” (para depois contar para os filhos e amigos histórias de aventuras “naquele lugar tão estranho”), tive uma sensação estranha, meio de raiva ou de ciúmes. Como se aquela terra fosse sagrada demais para isso. Passada a emoção do momento, só desejo que eles tenham aprendido a enxergar toda a beleza que estava ali em volta. Que essa experiência tenha sido, para eles pelo menos um pouco do que foi para mim.

Como já imaginava, quanto mais o tempo passa, mais consigo ter uma real dimensão do que tudo isso representou para mim. E acho que isso ainda vai durar por um bom tempo…

O balanço de tudo? Impossível dizer. Sei que, se vi que o mundo é muito maior do que imaginava, também percebi como sou pequeno. Hoje sou bastante cético com os grandes discursos sobre os direitos humanos, o fim da pobreza, a mudança na ordem mundial. Não são eles que me movem. Acredito, sim, no trabalho do médico que procura dar um tratamento mais humano mesmo tendo que atender cada paciente em quatro minutos; do pedreiro que, debaixo do sol, e enfrentando seus limites físicos, constrói as nossas cidades; do músico que abre mão de certezas pelo amor pelo que faz; do professor, que, desvalorizado financeira e socialmente, ainda vai todo dia dar suas aulas; das mulheres que levam bacias nas cabeças e os filhos nas costas nas ruas de Bissau. Dos heróis que vão morrer desconhecidos, sem estátuas, nomes de ruas ou grandes homenagens. Dos heróis do trem lotado e das casinhas de adobe ou de madeira. São eles que, na verdade, constróem o mundo.

São esses os heróis que me fazem ter certeza de que vale a pena acreditar e agir por esse tal “mundo melhor”, “tempo de justiça” ou como quer que se queira chamar. Sem aquela resignação de que qualquer coisa “já é alguma coisa”, mas sim com um desejo sincero de mudança, tendo a consciência que nem todo mundo pode sair ganhando, mas é possível construir uma forma mais justa de viver. E vale a pena continuar tentando. Nem que seja só porque o Mérli vai vir correndo atrás do carro.

Felicidade

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No meio da correria, adeus

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Daqui a menos de seis horas meu avião sairá de Bissau. A correria insana dos últimos dias impediu não só que tivesse mais tempo para escrever no blog, como também de me despedir da cidade da forma como gostaria. Vou embora deixando vários “Até logo” que acabaram se tornando “Adeus”.

Chegando ao Brasil, vou ter mais tempo e a cabeça mais fresca para escrever aqui. Nesse momento, uma mala me aguarda. No calor da emoção, só consigo começar a sentir saudade desses três meses intensos em todos os sentidos.

À Guiné-Bissau, muito obrigado! E quem sabe se esse “Adeus” não é, na verdade, apenas um “Até logo”…

Na estrada, sentindo Guiné-Bissau

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Pois é… Hoje falta menos de uma semana para eu me despedir de Bissau. Na madrugada do próximo domingo para segunda (10 para 11 de julho), pegarei o avião com destino a Lisboa, sem saber quando – e até mesmo se – um dia voltarei a esse país onde passei momentos inesquecíveis e que vão me marcar para o resto da vida. Momentos como os que vivi no último fim de semana.

Resolvemos ir para Varela, uma cidade no norte do país, na fronteira com o Senegal, que é um tipo de Ubatuba para quem mora em Bissau, o destino preferido dos guineenses nos feriados. Para que nós seis (digo, os seis estagiários) conseguíssemos ir juntos até lá, a melhor forma foi alugarmos um Sept-Place, um tipo de carro com dois bancos de trás (com capacidade, portanto, para sete passageiros, além do motorista). Chamamos o Abdulai, motorista que, além de ter o nome legal, já era conhecido dos nossos amigos brasileiros e cobrou um preço bem razoável para nos levar.

Depois de mais ou menos uma hora depois de nossa saída de Bissau, começamos a passar pelas várias pontes que atravessam os diversos estuários do litoral – completamente recortado – do país, a maior parte delas cobrando um pedágio de 250 FCFA, que provavelmente é fundamental para que elas fiquem tão conservadas, com aparência de recém-construídas.

Na ponte do rio que cai

Mas fomos nos distanciando de Bissau, a estrada começou a piorar, o que também aconteceu com a última ponte antes de chegarmos a Varela, que atravessa um pequeno córrego. Antes de passar, é necessário que sair do carro para ver se está tudo no seu devido lugar. E, mesmo tendo isso garantido, a ponte não transmite muita confiança. É necessário que o carro passe por duas madeiras, como um trem nos trilhos. Na dúvida, preferimos atravessá-la a pé.

Depois da ponte, mais estrada. Bom… Não falei antes, mas Varela é uma praia bem badalada na época da seca. A época das chuvas já começou e o acesso à cidade começa a ficar mais difícil, já que a estrada é de terra. E o inevitável aconteceu: o carro atolou na lama. O jeito foi sair e empurrar. E o resultado, bem previsível: calça de lama.

Mas, apesar das dificuldades, a estrada tem uma paisagem muito bonita. Os pedaços com grandes vazios parecidos com savanas se revezam com partes de mata mais fechada, com casas rurais guineenses, redondas com o telhado de feno (não de aluzinco, como é mais comum em Bissau). Em Varela, as casas seguem o mesmo estilo, apenas estão mais próximas umas das outras. Chegando na pousada onde ficamos hospedados (na qual nós éramos os únicos hóspedes), apenas almoçamos e partimos para a praia, seguindo a estrada de terra até onde foi possível com o carro. Depois de mais uns 10 minutos a pé, já conseguimos ver o mar e o que provavelmente é a praia mais bonita que já conheci. Praticamente vazia.

Amigos com o monstro do lago

Depois da chegada de dois amigos brasileiros que têm um 4×4, fomos de carro explorar um dos extremos da praia. Ali, mais uma surpresa: a maré baixa havia deixado vários lagos em uma faixa muito grande de areia. A mais ou menos 500 metros de nós, várias crianças brincavam, parecendo andar na água, por estarem em uma parte onde a areia estava mais alta. O fundo dos “lagos” era de húmus, bem preto, e fazia o pé afundar, como uma areia movediça. Ficamos algum tempo conversando com as crianças, que começaram a se enturmar depois que o Ari – um desses nossos amigos brasileiros – sujou toda a cara de lama e começou a correr atrás delas.

Mais para trás, uma grande faixa de areia estava coberta por caranguejos que, quando sentiam nossa aproximação, saíam correndo desesperadamente para seus buracos. Foram uns dez minutos de diversão, especialmente quando dois caranguejos começavam a disputar um buraco ou quando algum não conseguia encontrar nenhum lugar desocupado. Mas parei de torturar os pobres crustáceos e seguimos em frente.

O outro lado da praia

Fomos de carro até o outro extremo da praia. A essa altura, vários bois já dominavam a areia, saídos não sei de onde. A paisagem do outro extremo era bem diferente. No meio de um bosque que já terminava praticamente no mar, estavam algumas construções em estilo português, abandonadas há alguns anos, que faziam lembrar muito o cenário do filme Bruxa de Blair. No caminho, passamos também pelos destroços de um hotel cuja construção foi abandonada. E tudo isso, apesar de tão desprezado, só deixava tudo mais bonito.

Na manhã seguinte, eu e o Marco resolvemos colocar um plano antigo em prática: desviar um pouco o caminho de volta e conhecer algumas cidades do interior do país. Nossas colegas, receosas de como estaria a estrada, já que tinha chovido bastante na noite anterior, não quiseram nos acompanhar e preferiram voltar com o 4×4 dos nossos amigos.

Mas lá fomos nós. E como diria Capitão Nascimento: “Só podia dar merda” (a citação tem se aplicado bastante no nosso dia-a-dia…). Atolamos. E com gosto. Depois do que deve ter sido quase uma hora em uma estrada vazia, com o sol a pino e tentando todas as alternativas imagináveis para tirar o carro do buraco, fomos salvos por um francês que viajava com a família em um 4×4. O Abdulai teve a ideia de cortar os dois cintos de segurança dos bancos de trás para usar como corda. E o pior é que deu certo. Nisso, descobrimos que o francês já havia morado dois anos no Rio e falava bem português.

O Abdulai, com medo de atolar de novo, saiu correndo com o carro e acabamos o perdendo de vista. Depois de alguns metros a pé, cruzamos com um grupo de mulheres típico dessas estradas do interior da Guiné-Bissau, com bacias na cabeças e filhos nas costas. Foram logo puxando assunto, muito simpáticas, e fizeram questão de lavar os nossos chinelos, que estavam cobertos de lama, nessa atitude de mãe que é muito típica também das mulheres daqui. Depois de um tempo de conversa, nos despedimos e continuamos andando.

Amigas da estrada

Boleia santa

Mais um pouco de caminhada sem ver nem rastro do Abdulai e passa por nós um carro dirigido por uma freira. O Marco, que deve ser a pessoa mais cara-de-pau que eu já conheci, foi logo pedindo boleia (carona) e eu fui no embalo. E lá fomos nós pendurados atrás do carro da freira, eu me segurando no estepe e dizendo todos os palavrões que passavam pela minha cabeça (espero que falar palavrão em carro de freira não seja pecado). Mas a mulher, peruana, era boazinha nos modos, mas uma fera no volante e, para completar, tivemos que passar por aquela ponte de resistência duvidosa. Passado o susto, lá estava o Abdulai nos esperando, junto com os “zeladores” da ponte, que pedem uma pequena contribuição para que mantenham tudo em ordem.

Mais estrada e chegamos à nossa primeira parada: São Domingos. A cidade, com algumas ruas asfaltadas, lembra um pouco o centro de Bissau, só que com uma aparência mais calma. Fomos a um pier meio destruído para tirar umas fotos. O Abdulai nos avisou que a água ali tinha lagartos (isto é, crocodilos). Isso, em si, já seria aventura o suficiente, mas ainda contamos com o apoio de um menino endiabrado, que, vendo nosso desequilíbrio na ponte começou a imitar uma galinha, jogar pedras no Marco e dar uns socos em mim. Criança peste mesmo, como é bem comum no Brasil, mas nunca tinha visto aqui. Como nossas ameaças não o intimidaram muito, tiramos nossas fotos e fomos embora, torcendo para que ele caísse da bicicleta (eu sei que era uma criança, mas uma criança muito pentelha…). Até hoje, desconfiamos que ele era um brasileiro infiltrado, até porque falava português perfeitamente, o que é bem incomum entre as crianças daqui.

A estrada para Cacheu, nosso destino seguinte, também era uma atração à parte. As copas das árvores que acompanhavam a via formavam um túnel que se estendia por mais de um quilômetro. O sol já estava mais fraco quando chegamos em Cacheu. Nossa primeira parada foi no pequeno porto, por onde saíram alguns dos africanos escravizados no Brasil – é esquisito, mas vi isso escrito como se fosse um atrativo turístico em um muro da cidade. No lugar, porém, não há nada que remeta a isso. É apenas uma plataforma com capacidade para três barcos pequenos.

Estátua no forte de Cacheu

Um pouco distante, estava o forte de Cacheu, onde tivemos que pagar um “ingresso” para que o dono da chave pudesse abri-lo. O forte é bem pequeno, mas possui estátuas metálicas bem impressionantes feitas pelos portugueses para homenagear os “grandes nomes” da colônia, como o primeiro governador e o líder da luta contra a independência (que, pelo que me disseram, foi um dos maiores sanguinários que já passaram pela África). As estátuas, apesar de parcialmente destruídas, ainda guardam uma aparência ameaçadora e inquisidora, pelo tamanho e a postura dos “homenageados”.

Festival em Cacheu

Ao lado do forte, estava tudo sendo preparado para o início de um festival cultural do qual participariam vários grupos musicais de diversos estilos, que se apresentariam no palco de costas para o mar. No gramado em frente, os músicos já se preparavam, entre eles um grupo chamado 8 de Março, formado apenas por mulheres (algumas carregando os filhos nas costas). Algumas crianças que brincavam ali já foram se enturmando conosco, perguntando o nome, querendo sair nas fotos e jogar futebol. Infelizmente, tivemos que ir embora antes de que os grupos começassem a se apresentar, já que começou a chover e as atrações estavam atrasadas.

Voltamos no pôr do sol, que deixava a paisagem ainda mais bonita. Mais ou menos às sete e meia, chegamos em Bissau. O carro do Abdulai, completamente sujo de barro por dentro e por fora, sem os cintos de segurança do banco de trás e com a porta de trás completamente desmontada (sem querer, quebrei o mecanismo de subida e descida da janela tentando desemperrá-la). Nós, cansados e com fome (nos alimentamos de bolacha de chocolate durante o dia inteiro), mas com a sensação de termos passado por mais momentos inesquecíveis nesse país que, mesmo depois de três meses, ainda nos trás novas surpresas a todo momento.

Um outro país do futebol

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Início de jogo no Bairro São Paulo

Na tarde do último sábado, participamos de mais um momento marcante na comunidade São Paulo: a “inauguração” das bolas e coletes dados pela Fundação Gol de Letra para a realização das oficinas de esportes na nossa futura escola. E, para apresentá-los à comunidade, a Associação Amizade organizou dois jogos de futebol no campo terra que fica do lado da obra: um masculino (com dois tempos de 20 minutos) e um feminino (com dois tempos de 15).

A ocasião era tão especial que até dei minha participação durante os 20 gloriosos minutos do primeiro tempo. Depois de uma atuação essencial para garantir que o time tivesse 11 jogadores em campo, tive direito até a entrevista e “tchauzinho” pra galera.

O lado bom foi que quebrei um mito: o de que todo brasileiro é bom de bola. Mas, besteirol à parte…

O futebol é, sem dúvida, o esporte mais popular da Guiné-Bissau. Isso apesar da pouca tradição do país no esporte: a Guiné-Bissau nunca participou nem mesmo da Copa das Nações Africanas e parece distante de chegar a uma Copa do Mundo. Por esse motivo, a vitória da seleção guineense sobre o Senegal na fase regional das eliminatórias para os Jogos Africanos (equivalentes ao Jogos Panamericanos) foi recebida com tanta surpresa. No sábado em que o jogo foi realizado, ainda no primeiro mês em que eu estava aqui, os bares com televisão estavam lotados. Foi uma grande alegria, mas que não durou muito. Aparentemente, a seleção guineense possuía um jogador com 25 anos em uma competição que deveria ser sub-23. Consequentemente, os jogos contra o Senegal foram anulados e a seleção guineense, eliminada. Quem vai jogar com a Guiné-Conacri (a vizinha do sul) na semana que vem vai ser o Senegal mesmo.

Assistir ao futebol europeu nos bares com televisão, que cobram pelo serviço é um programa bem tradicional dos guineenses. Como os times nacionais ainda estão engatinhando em termos de profissionalização – e como não há uma cobertura jornalística efetiva para os jogos -, os guineenses têm mais identificação com os times europeus, principalmente de Portugal, como o Porto, o Benfica e o Sporting. Quando se fala em seleção, porém, o Brasil é a preferência absoluta. Como já disse outras vezes, é impossível passar mais de meia-hora andando por Bissau sem ver alguém vestindo uma camisa da seleção brasileira, ou que pelo menos faça alguma referência ao Brasil. Os guineenses também acompanharam de perto o Brasil na Copa de 2010 e a eliminação para a Holanda também foi uma frustração aqui (e eles também xingam o Dunga…). Os jogadores de futebol brasileiros são bem conhecidos, especialmente o Ronaldinho Gaúcho (ou simplesmente o “Gaúcho”), que provavelmente é o maior ídolo dos guineenses quando se fala em futebol, junto com o Eto’o e o Drogba. Mesmo aqueles que ainda não foram para o futebol europeu – como o Neymar – já começaram a ser badalados por aqui, o que torna bem mais fácil para mim explicar de onde sou: da cidade “do time do Neymar”.

Mas, apesar de futebol profissional ser praticamente uma coisa de estrangeiro na Guiné-Bissau, os guineenses também têm uma grande paixão pelo esporte e sabem torcer – e jogar – muito. Os bairros de Bissau estão cheios de quadras de terra com gols feitos de cibe. E, nas tardes de sexta-feira, as ruas do centro da cidade (que, entre as vias menos movimentadas, são as únicas que têm asfalto) ficam cheias de meninos jogando bola: pés descalços, gols de chinelo ou pedra, bola meio “baleada”. Se não fosse por falarem crioulo e chamarem “gol” de “golo”, poderia ser em qualquer cidade brasileira.

Gostaria muito de ver a seleção brasileira fazer um jogo aqui no estádio Lino Correia. Sem dúvida, seria um momento inesquecível para mim e, principalmente, para todos os guineenses que admiram nosso futebol e o nosso país. Uma vez, conversando sobre isso com um guineense, perguntamos como seria se o Brasil viesse jogar aqui. Ele só respondeu “Gente morre”. E talvez nem estivesse exagerando tanto assim…

Às compras

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Movimento na parte externa do Bandin, o mercado popular de Bissau.

Depois de uma longa ausência – dessa vez por causa de problemas técnicos com meu computador -, consegui finalmente ter um tempo de atualizar esse blog, cada vez mais descrente da promessa de fazer mais cinco postagens antes de voltar para o Brasil.

O assunto desse post tem relação com uma parte da minha rotina que, embora sempre presente, nunca foi tratada propriamente nesse blog: dinheiro e, principalmente, a forma como ele é usado – mercados, produtos, salários e coisas do gênero.

O Franco CFA, também chamado de “franco CFA”, “ceifa” ou “franco”, é a moeda da Guiné-Bissau e de outros 14 países do centro-oeste africano, a maior parte deles ex-colônias francesas. Enquanto em países do oeste, como Guiné-Bissau e Senegal, utiliza-se o Franco da África Ocidental (XOF), nos países localizados mais ao centro do continente, a moeda é o Franco da África Central (XAF). Embora as duas tenham o mesmo valor monetário, uma não é aceita na área de circulação da outra. É um pouco estranho, mas pelo menos é o que a Wikipédia diz.

Para se ter um parâmetro para comparação, mil francos CFA equivalem a aproximadamente R$ 3,50. E, embora a moeda esteja bem desvalorizada, tem se mantido estável. Desde que cheguei, a cotação do dólar (que tenho que consultar todo dia, já que essa é a moeda utilizada como padrão na cooperação internacional brasileira) variou entre 443 e 467 FCFA, o que representa uma oscilação relativamente pequena.

Nas minhas primeiras semanas, a pouca familiaridade com a moeda e a falta de parâmetro para definir o que era caro ou barato foram uma grande desvantagem minha nas negociações, já que aqui, como no Brasil, os preços para estrangeiros costumam ser bastante superiores. No entanto, desde então fiz vários progressos na arte de barganhar, que para mim é muito mais uma questão de sobrevivência que de gosto. O fato de já conseguir me comunicar em crioulo vem ajudando bastante, acho que não só pelo fato de conseguir me fazer entender melhor, mas principalmente por mostrar que não sou um gringo tão novato assim.

Como já disse em outro post, meu maior desafio no trabalho vem sendo conciliar as normas de compras e prestação de contas do governo brasileiro e do PNUD com a realidade local. E isso vai muito além da falta de clareza nos orçamentos e faturas fornecidos pelas empresas. Esse problemas nós já solucionamos em parte fornecendo modelos que nós mesmos preenchemos e só pedimos para que os vendedores assinem e, quando possível, carimbem. A outra questão problemática tem a ver com a forma como fazemos a tomada de preços, que tem que seguir os procedimentos tradicionais, com a necessidade de se colher três orçamentos. Com relação a isso, alguns problemas são: frequentemente não há mais de um ou dois fornecedores de um determinado produto; a qualidade do material é bastante variável, o que nos impede de tomar uma decisão com base somente no preço; e, principalmente: a cultura da negociação é muito forte aqui, o que torna muito difícil de explicar aos vendedores a lógica da tomada de preços (e que, para que eles sejam escolhidos, têm que oferecer o menor preço possível ainda no momento da tomada de preços). O meio termo que encontrei na compra que realizei na semana passada no Bandin (uma espécie de Brás de Bissau) foi o de barganhar no momento em que pedia o orçamento. Funcionou em parte: um deles, no momento em que eu estava indo embora, avisou: quando você vier comprar, nós podemos fazer desconto.

E, falando em Bandin, passear no meio das barracas desse mercado é uma das experiências mais interessantes que Bissau pode proporcionar. O Bandin é uma grande feira que mistura lojas mais convencionais e um grande número de barracas feitas de palha e cibe (uma madeira muito utilizada aqui). Lá é possível encontrar de tudo: roupas tradicionais e “modernas”, tecidos, comida, eletrônicos, DVDs, materiais de construção… Na grande área atrás das lojas, onde ficam as barracas, os corredores são estreitos e escuros – o espaço de circulação é coberto com palha, tecido e papelão – e o chão é irregular, todo feito de pedra. Em alguns espaços mais abertos, os comerciantes costumam fazer chá ou cozinhar o arroz na hora do almoço. O movimento de pessoas é grande desde a manhã até o fim da tarde, quando o comércio começa a se recolher.

Perdido no caos.

Outro local de compras muito bom de se conhecer é o que chamamos de “feira dos senegaleses”, que fica próximo ao porto de Bissau. Lá está o comércio mais turístico, de artesanato e outros produtos típicos, tanto em barracas como em lojas, como a que gerou a foto ao lado.

As mercearias e pequenos supermercados – normalmente propriedade de libaneses – também são lugares interessantes. Como praticamente tudo é importado, neles é possível encontrar produtos de vários lugares do mundo, principalmente da Europa, de países árabes e de outros países da África mais desenvolvidos economicamente, como o Senegal, de onde vêm os produtos da Nestlé, como o Leite Nido (Ninho) e o Nescafé. Entre as várias coisas curiosas que já comprei, destacam-se uma bolacha romena, Coca-Cola e Halls com a embalagem em árabe. Também já experimentei refrigerante de várias marcas e sabores, incluindo manga, abacaxi (Fanta Ananás) e limão com morango (esse último tão ruim que não consegui beber a latinha inteira). Consegui encontrar Guaraná Antárctica e Pepsi apenas uma vez.

A forma mais tradicional de comércio em Bissau, porém, são as feiras livres, presentes em diversos lugares da cidade. Nelas, são vendidas frutas, verduras e legumes, além de alguns enlatados e, claro, arroz e peixe, que são a base da culinária guineense. Uma coisa que chama a atenção ao olhar as barracas com gêneros alimentícios é o pequeno tamanho de produtos como tomate, limão e repolho, que parecem miniaturas daqueles que eu estava acostumado a ver. Um outro produto muito vendido nas feiras é o kuduro, que além do nome do estilo musical, é o pão tradicional guineense, parecido com uma baguete, mas com a consistência mais dura.

Prato com peixe e arroz guineense

O arroz que é consumido aqui também é diferente do que costumamos comer no Brasil: é menor e é servido mais empapado. Segundo me disseram, esse é tipo de arroz usado em muitos países como ração e que, por muitos anos, foi mandado por outros países para a Guiné-Bissau, como produção excedente. Bem ou mal, acabou caindo no gosto popular e se tornando parte da culinária local. E, ao contrário do que pode parecer, é muito gostoso. Meu novo hábito de fazer mais ou menos metade do prato com arroz surgiu por causa dele.

O arroz é, por sinal, a solução alimentar (e praticamente o único alimento) de muitas – senão da maior parte – das famílias guineenses, que têm uma renda mensal e 20 e 30 mil FCFA (70 a 105 reais, aproximadamente, com um poder de compra semelhante). E esse grupo inclui também alguns servidores públicos e professores que trabalham em tempo integral. Para eles, a alimentação é composta basicamente pelo arroz com caldinho Maggi (vendido em barraquinhas espalhadas por toda a cidade) e um ou outro legume ou peixe misturado.

Outdoor da MTN na Praça dos Heróis Nacionais. Sinal dos tempos...

A situação é bem complicada, mas as coisas tendem a melhorar. A estabilidade política, ainda que frágil (faz pouco mais de um ano desde a última tentativa de golpe) vai, certamente, contribuir para incentivar os investimentos, vindos tanto de dentro quanto de fora do país. E as novas gerações, com maior acesso à educação (mesmo considerando a precariedade da maior parte das escolas), também têm mais condições de aproveitar todas essas oportunidades que seus pais. Claro que as coisas mudam em uma velocidade muito mais devagar do que nós gostaríamos. Mas acreditar que as coisas vão ser melhores daqui para frente serve, pelo menos, para terminar esse post de uma maneira mais feliz.

Guineenses e “coperanti”

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Andar na rua sem conseguir ser apenas “mais um na multidão” é uma experiência nova para mim. Em um país com a quase totalidade da população negra, meu bronzeado de escritório já entrega que sou de fora, onde quer que esteja. Apesar da situação às vezes desconfortável de estar chamando atenção por mais que eu tente passar despercebido, não tenho do que reclamar: os guineenses, como os brasileiros, têm uma relação muito cordial com os estrangeiros e respeitam bastante as diferenças culturais. Além do mais, a presença de estrangeiros em Bissau não é nada estranha, pela enorme quantidade de projetos de cooperação internacional no país, principalmente da ONU, mas também da União Europeia (especialmente de Portugal), da China e da Líbia. Não por acaso, a palavra em crioulo para “estrangeiro” é “coperanti”.

A cooperação internacional – assim como o trabalho de organizações filantrópicas, sobretudo ligadas a igrejas – tem uma importância central para o país, que teve a economia destruída pela guerra civil nos anos 90. As ruas de Bissau são cheias carros e prédios abandonados que um dia foram importantes centros de lazer ou edifícios do governo. É o caso do único cinema da cidade, próximo ao hotel onde estou, que hoje é um grande prédio deserto, usado como depósito por alguns artesãos. Sem medo de exagerar, é possível dizer que o país está sendo construído agora, praticamente do zero. Algumas coisas são mais visíveis, como as ruas que estão sendo asfaltadas e a iluminação pública que, bem aos poucos, começa a ser reativada. Outras nem tanto, como a reforma do Estado, com a tentativa de recolocação profissional dos servidores afastados, que tem o apoio da União Europeia. Em qualquer situação, uma coisa é clara: não existe uma política pública que não conte com o financiamento ou apoio técnico externo. E se, por um lado, isso acaba sendo essencial para que o país inicie um processo de desenvolvimento mais substancial, também acaba gerando como efeito colateral a perda de soberania.

Os chineses estão investindo pesado na Guiné-Bissau devido ao interesse pelos direitos de pesca no litoral do país. Estão construindo, inclusive, a nova sede do governo e dos ministérios. Tudo isso usando mão-de-obra e materiais vindos exclusivamente da própria China. Assim, não enfrentam a mesma dificuldade que estamos tendo no projeto em que trabalho, de falta de alguns materiais, já que praticamente tudo é importado, o que também faz o preço subir bastante. Constroem rápido, realmente, mas não incentivam em nada a economia do país.

Mas, apesar da sua reconhecida eficiência, os chineses em geral não são bem vistos pelos guineenses, talvez por serem uma das culturas mais diferentes da local. A Rosa, camareira aqui do hotel, já declarou guerra aos vários chineses que se hospedam aqui. É difícil conversar mais de cinco minutos com ela sem que ela se lembre de dizer como os chineses são bagunceiros e “porcos”. Não sei dizer se é verdade, mas que ela não gosta deles, não gosta.

Entre os estrangeiros, porém, a maior comunidade parece ser a libanesa, que domina o comércio, inclusive o hotel onde estou e todas as lojas vizinhas (negócio de família). Entre eles, costumam utilizam o francês para se comunicar, mas a maior parte já fala o crioulo razoavelmente.

Com a minha convivência com os libaneses, percebi que aquela imagem de passividade que se tem da mulher muçulmana não é necessariamente real. Pelo contrário. Há um mês, chegou do Líbano a Dona Alice, esposa do dono do hotel, recebida com entusiasmo pelos funcionários. E logo que ela chegou, as mudanças já começaram a acontecer. O Jamal (o “patron”, como é chamado pelos funcionários), que sempre andava esculachado pelo hotel, estava com o bigode feito impecavelmente e a camisa limpa e abotoada. O café da manhã deu um “upgrade” no cardápio, os corredores ficaram mais limpos e nosso quarto ganhou até uma nova decoração, em estilo árabe.

Mas, voltando aos assuntos de maior importância…

Líbia Hotel, um dos negócios de Gaddafi em Bissau

Os líbios, já há algum tempo, têm grande influência e popularidade na Guiné-Bissau. Aqui, Gaddafi é visto como um herói da resistência africana, e um homem “muito bom para a Guiné”. De fato, ele foi o responsável por vários investimento no país nos últimos anos, devido ao seu projeto de islamização da costa oeste da África. Existem fortes boatos, inclusive, de que foi ele o financiador do golpe de Estado de 2009, que matou o presidente Nino Vieira. Lembrando que a Guiné-Bissau está cercada por dois países de governo islâmico – Senegal e Guiné -, mas, apesar de ter uma grande parcela de sua população muçulmana, ainda é um Estado laico, embora atualmente tenha um presidente muçulmano.

Centro de Formação Profissional Brasil - Guiné-Bissau

O Brasil também possui muitos projetos de cooperação na Guiné-Bissau, assim como nos outros países africanos de língua portuguesa (os PALOPs), que concentram 70% dos projetos de cooperação brasileira na África. Entre eles, estão o Centro Cultural (que fica anexo à Embaixada), o Centro de Formação Profissional (gerido pelo SENAI), uma parceria para a estruturação das Forças Armadas (junto com Angola) e o apoio à estruturação do equivalente à nossa Polícia Federal.

À parte da cooperação internacional, a realidade do Brasil também é bem conhecida através da Record Internacional, que é um dos principais canais de televisão do país. Embora a televisão não seja algo tão presente nas casas guineenses quanto nas brasileiras, programas como as novelas “Mutantes” e a versão brasileira de “Rebelde”, o Cidade Alerta, o Programa do Gugu e o “Programa do Rodrigo (Faro)” são bem populares. Não é de surpreender, assim, que boa parte dos guineenses relacione o Brasil a mulheres semi-nuas e cidades violentas. Uma vez, em uma padaria, uma das minhas colegas perguntou a um menino de uns cinco anos o que ele conhecia do Brasil. A resposta dele foi “Ladrões”.

Apesar disso, a imagem do Brasil e dos brasileiros por aqui é muito boa. O tempo todo, pessoas vêm puxar assunto por reconhecerem, pelo nosso sotaque, que somos brasileiros (normalmente guineenses que fizeram a faculdade lá e retornaram). A nacionalidade também ajuda a conquistar a simpatia – e alguns descontos – dos comerciantes. É comum ouvir as pessoas dizerem que somos “povos irmãos”.

O grande problema é que eu sempre tenho que falar para deixar explícita minha nacionalidade. Vários vendedores já me cumprimentaram com “Bonjour! Ça va?” ou “How are you?”. Daí saem respostas interessantes, do tipo “Fine, mas sou brasileiro”. Também é comum que pensem que sou português, o que trato de negar logo – por motivos óbvios, os portugueses não são exatamente o povo que mais conquista a simpatia dos guineenses.

Como já disse, a influência americana – cultural e econômica – não é, aparentemente, tão forte quanto no Brasil. É claro que é comum ouvir música e falar de filmes norte-americanos (quando falo meu nome, muitos dizem “Leonardo di Caprio”), mas aqui não é como no Brasil, onde é quase impossível ouvir 5 músicas seguidas sem que uma seja de lá. Apesar disso, existe uma grande febre “Obama”, que é uma estampa muito comum em camisetas e até jóias (já vi um brinco com a foto dele). Com a guerra contra a Líbia, a popularidade do presidente caiu muito. O sentimento que predomina agora com relação a Obama é o de frustração. E as camisetas de Gadaffi continuam a ser vendidas…

É interessante ver como a identidade africana é forte por aqui. Os jornais e os rádios dão muito destaque às notícias da África, especialmente dos PALOPs, que têm uma forte identificação entre si. Os livros de história das escolas também dão um grande destaque à história da África, a contando do ponto de vista dos africanos – e não dos europeus, como os nossos costumam fazer. Acho que isso é resultado dos movimentos pela independência, relativamente recentes.

Há quase um mês, ocorreu a Semana da África, que é comemorada nas escolas e nas ruas, por movimentos pan-africanistas, que ainda têm força e apelo. A Copa do Mundo também contribuiu para reforçar essa identidade “continental”. Não por acaso, a música “Waka-waka” ainda é muito tocada no rádio e nas discotecas, onde também se ouve bastante música africana “de verdade”, como o gumbé, zouk, kuduro e rap angolano.

Branco pelelê
Existe uma brincadeira muito comum na Guiné-Bissau de chamar os brancos de “branku mpelele” (branco pelelê) – até mesmo desconhecidos na rua. E, por mais estranho que pareça, não existe nada de agressivo ou maldoso nisso. O que se espera é que você responda chamando a pessoa de “pretu mbao”. Daí todo mundo ri e segue em frente. A situação é bem estranha para nós, brasileiros, que costumamos (até por causa de todo nosso passado) encarar a cor da pele como um tabu. Mas com o tempo a gente se acostuma…

Mais uma música
E, para terminar mais um tópico musicalmente, segue o vídeo de um show realizado no centro de Bissau em 2008. Vale a pena ver não só pela música, que é muito boa, mas também para sentir um pouco o clima do país. Na página “Top Bissau”, deixei uma versão completa da música.

Reta final
Recebi ontem a confirmação da minha partida de Bissau: 10 de julho, data do fim do meu contrato. Isso significa que hoje, completando dois meses na Guiné-Bissau, começo também meu último mês por aqui, que vai ser cheio de trabalho, com a retomada da obra e a nova coordenação do projeto. E, também, como sempre, cheio de surpresas.

Papia Kriol

15 Comentários

Dizer que o português é a língua oficial da Guiné-Bissau esconde uma importante realidade: a de que essa língua é falada fluentemente apenas por cerca de 20% da população do país. Na prática, o idioma dos guineenses é o kriol (crioulo guineense), a língua franca que permite a comunicação em um país com uma grande variedade de línguas étnicas.

Cartaz do preservativo "Panté", o mais popular da Guiné-Bissau. "Kau di bindi" significa "Local de venda".

Como o crioulo é uma língua essencialmente oral, a grafia das palavras varia de acordo com o convencionado por cada linguista (ou cada pessoa, na prática). Além disso, como o idioma ensinado na escola é o português (apesar de o kriol ser reconhecido oficialmente), os registros escritos normalmente estão nessa língua. As propagandas, com o objetivo de atingir o maior número de pessoas, inclusive as que são alfabetizadas mas não falam bem o português, são uma exceção. A ONU também utiliza o crioulo nas suas publicações educativas, como cartazes e histórias em quadrinhos. Uma delas, passada a nós por nosso professor de crioulo, falava de Tony Rabada, um gibi de prevenção à SIDA (AIDS) de um homem “que não podia ficar um dia sem mulher, senão ficava louco”.

Cartaz da ONU, em português e crioulo, sobre os Objetivos do Milênio

A comunicação, porém, não é tão difícil quanto pode parecer. Os mais jovens em geral – por terem tido maior acesso à escola – entendem e falam o português. Além disso, o kriol se assemelha muito ao português oral do Brasil, como no corte do “r” dos verbos e da troca dos “e” e “o” finais por “i” e “u”, respectivamente. Assim, “de” é “di” e “com” é “ku” (palavra que também serve como “e”). “Para” é “pa”. Em alguns casos, é possível até dizer que o crioulo é uma versão simplificada do português: não tem artigos, gênero ou plural (embora, por influência do português, essas duas coisas já estejam começando a aparecer nas conversas) e os verbos não têm uma conjugação tão complexa, por exemplo. Mas o léxico é praticamente igual, apenas escrito e falado de uma forma diferente.

A literatura guineense é quase toda escrita em português, como mostra esse poema de Vasco Cabral, um dos poetas da época da independência (mais uma indicação da Nayara, consultora de assuntos culturais):

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