Finalmente, consegui encontrar um tempo para escrever sobre o que estou vivendo aqui, em Bissau. Hoje faz uma semana que cheguei, mas nesses sete dias que passaram voando vivi tantas coisas que, se voltasse para o Brasil hoje, já não seria mais o mesmo que chegou aqui. É um pouco clichê, mas é totalmente verdade.

Um aviso importante: por mais completos que sejam os relatos que eu escrever, não vou chegar perto de mostrar o que é estar aqui, algo totalmente diferente de ver algum vídeo, fotos ou textos. Existe uma grande carga de sensação, que é muito difícil transmitir em um texto, ainda mais quando é escrito alguns dias depois de as coisas acontecerem. Mas vamos lá…

Fiz um voo de 4 horas de Lisboa para cá extremamente desconfortável. Não pelo avião, mas pelo fato de ter que ficar com minha mochila entre as pernas, já que os porta-bagagens estavam cheios. Ao sair do avião, o primeiro impacto foi o do clima. Para quem saiu de uma noite fria em Lisboa, foi estranho chegar em um lugar quente e abafado como é Bissau no período da seca (que vai até maio). O aeroporto lembra muito uma rodoviária brasileira. Na parte do desembarque, não havia nada que chamasse muita atenção. Apenas os guichês para carimbar o passaporte, as esteiras por onde vinham as malas (depois de uma longa espera) e um pequeno free-shop, bem simples. Mas tudo transcorreu bem. Chegamos ao hotel e, no dia seguinte, começamos a nos acertar.

Olhando apenas as construções e o estado das ruas de Bissau, tem-se a impressão de que a cidade foi abandonada. Há poucas ruas asfaltadas. Iluminação pública é algo ainda mais restrito. Quando saímos à noite, levamos lanternas para não tropeçar ou cair em algum dos muitos buracos que encontramos no caminho. Os prédios são pouquíssimos e não passam de cinco andares. Em sua maioria, dão a impressão de que foram abandonados e depois ocupados por quem não tinha onde morar. Há também muitos carros abandonados na rua. Segundo me explicaram, foram deixados pelos proprietários que não tinham dinheiro para abastecê-los ou vendê-los, resultado da guerra civil, que acabou com a economia do país.

Como não há coleta de lixo, a cidade é cheia de pequenos terrenos desocupados onde ficam amontoados os vários sacos com o lixo jogado pela população (que não é muito, por causa do baixo poder aquisitivo da maior parte das pessoas). Com certa frequência, esse lixo é queimado para que se possa continuar a usar esses espaços para descarte.

Na praça central, está o prédio onde funcionava o Governo até 2009. Já passei por lá várias vezes, mas não consigo deixar de sentir uma sensação muito desconfortável toda vez que o vejo. As paredes estão cheias de marcas de balas e o telhado e os vidros, destruídos, resultado do atentado que matou o presidente Nino Vieira em 2009.

A pobreza está em todos os lugares e sabemos que é muito intensa, mas não tem nada a ver com aquela do Brasil. Ainda não sei explicar direito por quê, mas aqui ela parece menos “agressiva”, embora seja, em geral, mais forte. Talvez porque aqui as construções sejam, por natureza, mais simples (e não uma tentativa de imitar outras mais luxuosas). Mas ainda não acho que refleti o suficiente sobre isso…

(Foto do Marco) Uma legítima mulher de Bissau, com o filho amarrado nas costas.

Apesar de tudo isso, Bissau é uma cidade bonita e agradável. Os homens andam de uma forma mais ocidental (calça e camisa), mas as mulheres usam túnicas muito coloridas, em estilo africano, além de lenços na cabeça e adereços de muito bom gosto, muitas delas carregando os filhos pequenos em um pano amarrado nas costas (aliás, nunca vi um lugar com tantas crianças como aqui). A noção estética é muito diferente da que temos no Brasil (pelo menos em São Paulo), mas é impossível não admirar a beleza das ruas cheias coloridas. Agora, que já tive tempo para acostumar os olhos, estou aprendendo a apreciar ainda mais essas coisas, que dão ar de humanidade às ruas e quebram a frieza e a tristeza da maior parte das construções.

O comércio mais comum são as barraquinhas que vendem chips e cartões para celular, mas também existem várias mercearias e farmácias, além do comércio popular. No mercadinho que fica aqui na esquina do hotel, comprar é sempre engraçado. Os três irmãos libaneses que ficam no caixa estão sempre brigando e se enrolando com o troco. Ficam os três falando muito rápido e arrancando as notas das mãos dos outros.

Para compreender como as coisas funcionam aqui, é preciso tentar deixar um pouco de lado o que se carrega do Brasil. A lógica é outra, que pouco tem a ver com o modo “industrial” de viver que trouxe comigo (e que só agora consigo perceber). Se isso pode ser muito bom por alguns pontos de vista, também tem várias desvantagens. A falta de um pensamento mais “sistemático” dificulta muito o comércio, por exemplo. Em um restaurante cheio, a comida demora pelo menos uns 40 minutos para chegar. E a conta sempre vem com algum problema. Fazer qualquer compra ou pagamento é sempre, uma tarefa muito complicada.

Eu, Jaque e Marco na "bolha"

Logo que chegamos, por indicação da Embaixada, ficamos no que deve ser um dos hotéis mais luxuosos da cidade. A sensação era de estar em um oásis. Os muros separavam o que parecia um resort tropical das ruas de terra que o cercavam. Depois de dois dias, encontramos um novo lugar para ficar. Além de o valor das diárias ser pesado em relação ao que recebemos, lá nos sentíamos em uma “bolha”, o que não era a intenção de ninguém. Agora estamos em um hotel mais no centro da cidade, parecido com uma pousada. O dono, um libanês, nos deu um excelente desconto e ainda nos colocou nos melhores quartos, com varanda e tudo. Isso porque somos brasileiros (toda vez que nos vê, grita “Viva Brasília!”). Ele e os guineenses em geral, têm uma grande admiração pelo Brasil. Dizer que se é brasileiro conquista sorrisos e abre muitas portas aqui.

Meu cantinho em Bissau

Nesse novo hotel, todos são muito legais. Rosa, a camareira do nosso quarto, que tem um filhos fazendo faculdade no Brasil (o que é muito comum entre os jovens daqui), disse que é a nossa mãe em Bissau. Sempre lava as roupas que deixamos sujas de barro no quarto. O recepcionista da noite, Cristóvão, nos ensina alguma nova frase em crioulo toda vez que nos encontra. Para quem não sabe, o crioulo é, grosso modo, uma língua que mistura a língua do colonizador (no caso, o português) e as línguas que já eram faladas aqui. Em Guiné-Bissau, o português, que é a língua oficial, não é falado nem por 20% da população. O crioulo (que é uma língua mesmo, não um dialeto) acaba sendo a língua franca. E bem simples. Não tem gênero e os verbos não variam entre as pessoas. Imagino que no fim dos três meses já vamos conseguir nos comunicar razoavelmente bem.

Depois de uma semana de reuniões e apresentações, hoje comecei a trabalhar de verdade. Já consegui me acostumar um pouco com a cidade e organizar a cabeça. Mas meu compromisso com a ordem cronológica é maior que minha vontade de contar tudo de uma vez. Por hoje, termino por aqui.

Fotos

Até agora, preferi observar mais e fotografar menos. Vou deixar essa parte de registro mais para o fim da minha estadia. Por isso, a maior parte das fotos que vou colocar aqui não são minhas.

Curiosidades

– Em Bissau, os táxis funcionam como transportes coletivos, levando todas as pessoas que encontram no caminho (ao mesmo tempo) e cobrando um preço único.

– Segundo informações da Embaixada, existem cerca de 350 brasileiros vivendo em Guiné-Bissau. A maior parte, missionários.

– Ontem aconteceu um amistoso entre Guiné-Bissau e Senegal, em que a seleção daqui, incrivelmente, venceu por 2 x 1. Embora seja muito popular, o futebol não tem nenhuma tradição ou estrutura aqui. Quando nós perguntamos a um guineense se acha que a sua seleção vai à Copa do Brasil, eles dão risada como quem ouve uma coisa absurda.

– A Fanta daqui, importada de Portugal, tem uma cor amarela (não laranja como no Brasil). Também existe a Fanta Ananás (abacaxi), que ainda não consegui experimentar.

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