Desde que comecei a escrever nesse blog, tive bem claro que o meu objetivo aqui era mostrar Guiné-Bissau através dos meus olhos, procurando transmitir minhas experiências aqui aos familiares e amigos do Brasil e ao mesmo tempo manter um registro pessoal, sem grandes pretensões. Não é meu objetivo comover, emocionar ou fazer reflexões profundas… Apenas relatar. Este post, porém, vai fugir um pouco disso. Nessa madrugada, tive uma experiência que não posso deixar passar em branco, não só por ter sido muito marcante, mas também por ter me feito pensar bastante sobre algumas coisas que já estavam na minha cabeça há algum tempo. Peço desculpas a quem prefere o “estilo normal” desse blog ou simplesmente não queira ouvir minha opinião e prometo posts mais animadores mais para frente.

Como já disse em um comentário num post anterior, o hotel onde estou fica próximo ao Hospital Nacional Simão Mendes, que, segundo me informaram, é o único hospital público da cidade de Bissau. Até agora, todas as pessoas que conversei que já estiveram lá dentro me relataram situações que, sem medo de exagerar, posso dizer que foram de “terror”. Já estive dentro da área do hospital, mas apenas para ir à farmácia, uma sala com os móveis muito desgastados, bastante desorganizada e cheia de moscas. Não presenciei nenhuma das situações degradantes que me contaram.

Na madrugada de ontem para hoje, mais ou menos às duas da manhã, fui acordado pelo meu colega de quarto, que me chamou para ver o que estava acontecendo na rua. Da minha cama, já conseguia ouvir a voz de mulheres dizendo algumas palavras em voz alta, como se estivessem rezando. Chegando na varanda, vi que havia várias pessoas andando no meio da rua, escura pela falta de iluminação pública. Bem embaixo de onde estava, uma mulher fazia uma espécie de ladainha de lamento, misturada com um choro daqueles mais perturbadores. Na frente do cortejo (isso eu não vi, apenas me contaram), um homem segurava alguma coisa enrolada em um lençol branco.

Mesmo sem saber explicar o que estava acontecendo, aquela visão e, principalmente, o som da mulher que chorava impressionaram muito. Naquele minuto, passou de tudo pela minha cabeça. Juntando as peças depois (não eu, que não consegui colocar o pensamento em ordem), a situação ficou mais clara: estávamos assistindo ao funeral de uma (de mais uma) criança que havia acabado de morrer no Hospital Simão Mendes, provavelmente vítima do paludismo (malária), cólera, mal de chagas ou outras tantas doenças que se proliferam na pobreza.

Passado o cortejo, ficou apenas o clima mórbido na rua, ajudado por um cachorro que começou a uivar. Depois de passar uns 5 minutos olhando para a rua vazia, voltei para a cama. Por sorte, não demorei muito para dormir, nem sonhei com isso. Mas, assim que acordei, veio tudo de novo.

Foi interessante ter presenciado essa cena no dia em que pareceu que o mundo comemorou a morte (combinação de palavras que já é contraditória por si mesma) do “Mau”. Foi assustador ver pela televisão um país inteiro – ainda mais um país do porte dos Estados Unidos – celebrando uma morte. Afinal, era o espetáculo da “luta contra o terror”, que, na minha humilde opinião, é uma das maiores lavagens cerebrais da história.

É muito cômodo ter um inimigo. Dessa forma conseguimos transferir para os homens de barba, que falam uma língua estranha e moram longe todo o mau que existe no mundo. O terrorismo é muito bom para isso. Agora, difícil é pensar que nós somos – mais ou menos diretamente – parte do Mau, quando compramos o produto chinês porque é mais barato, descartamos um equipamento que funciona só porque já criaram outro mais moderno ou votamos no político que “rouba, mas faz”. Não sou nenhum grande fã do Capitão Nascimento, mas sempre me lembro de uma parte do filme em que ele diz: “A favela não existe por acaso”. Pois é… Alguém tem que pagar pelo nosso luxo.

Desde que cheguei, tenho a incômoda sensação de que sou muito pequeno perto de tudo isso e que tudo que eu puder fazer vai ser quase nada. Todos os discursos dos “líderes mundiais” falando sobre a luta contra a pobreza ou a “paz mundial” me parecem cínicos. Cada vez mais tenho a impressão de que os “direitos humanos” são um discurso que só serve quando é conveniente.

A pobreza mata o tempo todo, milhões de pessoas, deixa outros tantos milhões vivendo uma vida sem grandes perspectivas, só que não tem prédios pegando fogo em Manhattan, explosões no metrô de Madri ou ameaças cinematográficas na Al Jazeera. Apenas uma mãe chorando na favela do Brasil, na periferia de Paris ou nas ruas escuras de Bissau. É silenciosa, resignada. Essa noite me deu a certeza: o pior terrorismo do mundo é esse.

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