Na última quarta (11 de maio) completei meu primeiro mês na Guiné-Bissau, tempo suficiente para que eu possa dizer que tenho uma certa rotina aqui. Um pouco diferente da rotina de São Paulo – aqui, cada dia ainda é cheio de coisas novas -, mas organizada o suficiente para que eu possa chamar assim.

Um mapinha dessa parte de Bissau, feito meio porcamente.

Sinceramente, acho Bissau uma cidade muito agradável e tranquila para se viver. Apesar do forte calor – os dias se dividem entre os muito quentes e os insuportáveis -, é muito bom andar a pé pelas ruas aqui do Centro, principalmente no fim da tarde. Aqui, ando com menos pressa e mais tranquilo, até mesmo à noite, apesar da falta de iluminação da maior parte das ruas.

De segunda a sexta, costumo acordar às 8h. Tomo banho (em parte no escuro, porque é na hora da troca do óleo do gerador) e como algumas bolachas árabes, húngaras ou egípcias que comprei na loja dos libaneses. É que, depois de duas semanas, já não aguentava mais tomar o café da manhã do hotel, assistindo a um jornal francês que parecia dar as mesmas notícias todo dia. Mais ou menos 8h50, saio para a trabalhar na Embaixada, que fica a uns 10 minutos a pé do hotel onde estou. Nos bolsos: passaporte e carteira com uns 10 mil francos, minha cota de gastos diários.

Fim de tarde na Praça dos Heróis Nacionais. Ao fundo, o antigo palácio presidencial.

Chegando na Praça dos Heróis Nacionais (onde fica o palácio presidencial destruído na guerra civil), sou sempre surpreendido pelos meninos vendedores de cartões de celular que, onde quer que estejam, saem correndo em uma velocidade inacreditável (sem olhar para atravessar a rua) para conseguir o cliente. A regra é implícita, mas clara: ganha quem chega primeiro.

A telefonia móvel parece ser uma das áreas mais desenvolvidas do país. Em Bissau, é impossível andar duas quadras sem encontrar uma barraquinha de madeira ou alguém a pé vendendo cartões de recarga para celular. Logo que cheguei, comprei meu chip da MTN, que é vendido por um preço bem baixo. O serviço é bem razoável (pelo menos tão bom – ou ruim – quanto o das empresas brasileiras), com a vantagem de ter o “Liga-me”, que é um torpedo gratuito que você pode usar quando quer falar com alguém, mas não tem crédito.

Contornando a praça, sigo por uma avenida cujo fim é a Assembleia Nacional Popular (o “Congresso” da Guiné-Bissau). Nessa região, ficam as sedes de alguns ministérios e várias embaixadas, como a de Angola, da Espanha, de Cuba e a do Brasil. Junto a ela, está o Centro Cultural Brasil-Guiné-Bissau, que desenvolve várias atividades para promover o intercâmbio cultural entre os dois países.

Nesse horário, a entrada da Embaixada costuma ficar cheia de jovens guineenses que buscam vagas em universidades brasileiras através do PEC-G, um programa do Ministério das Relações Exteriores do Brasil para estudantes de outros países em desenvolvimento, do qual participam quase todas as universidades públicas brasileiras e uma boa parte das maiores universidades privadas. É muito comum que os jovens daqui vão estudar em outros países e, entre eles, o Brasil é um dos destinos mais procurados (senão o mais). Não há universidades públicas no país e, por mais que o governo brasileiro exija uma renda familiar mínima que exclui a grande maioria das famílias guineenses (no ano passado, era de 1.200 dólares, sendo que a família deve enviar pelo menos 400 dólares mensais ao estudante), o diploma de uma universidade brasileira é muito valorizado – e faz com que muitos façam um sacrifício.

Com carimbo e tudo. Agora sim, um burocrata completo.

No trabalho, como já disse, sou responsável pela administração financeira da obra, o que inclui os processos de compra de material e prestação de contas. Casar as exigências do governo brasileiro com as condições do mercado aqui tem sido um grande desafio. As faturas que as empresas fornecem dificilmente cumprem todas as exigências e, quando é preciso fazer tomada de preços, a situação é bem pior. Não vou me surpreender se algum dia receber um orçamento escrito em um pedaço de guardanapo. É sério.

Embora o expediente aqui seja igual ao do Brasil (das 9h às 18h), o horário de almoço normalmente é feito das 14h às 16h. Obviamente, minha fome habitual não permite que eu espere até as duas da tarde para comer. Normalmente faço meu horário de almoço das 13h às 14h. Junto com os outros cinco estagiários, costumamos ir ao restaurante da ONU, que, embora fique meio longe, sai mais em conta.Os pratos aqui sempre vêm com muito arroz (mais empapado que o do Brasil) e batatas. O cardápio normalmente é peixe. Já estou bem adaptado à comida daqui. Aprendi a gostar de peixe (seja qual peixe for), a equilibrar a quantidade de arroz com a mistura e até a comer arroz com arroz, mesmo.

O caminho na volta do trabalho.

Às seis da tarde, é hora de voltar para casa. O calor, nesse horário, já está bem mais tolerável, o que deixa o caminho muito agradável. As famílias de porcos (que são como os cachorros vira-latas daqui) já estão se recolhendo e as pessoas, voltando do trabalho, seja pelos toka-tokas – que são como Combis, usadas como transporte público – ou táxis – que também são um meio de transporte muito comum. Também é o horário em que os estudantes dos liceus (escolas de ensino médio) estão voltando para casa, muitos de camisa social e gravata curta, que é o uniforme de várias escolas.

A partir dessa última semana, nas terças e quartas nosso horário de volta ficou para um pouco mais tarde, já que começamos a fazer aulas de crioulo no Centro Cultural. O crioulo, aliás, é uma língua muito interessante e bem parecida com o português, só que bem mais simples. Provavelmente, vai ser o assunto de um dos próximos posts…

Chegando no hotel, é hora de tomar mais um banho e lavar a roupa, tarefa que ficou muito mais fácil depois que o Jamal (o dono) falou que poderíamos mandar as roupas para lavar de graça, só porque somos brasileiros. Pois é… “Viva Brasília!”

(As roupas encolhem mais a cada nova lavagem, mas só o fato de não ter que ficar de cócoras no banheiro lavando roupa na bacia já é um grande avanço…)

Mais ou menos às oito, saímos para jantar. Depois de um mês, já dispensamos as lanternas e vamos na rua escura mesmo, só tomando cuidado com as esquinas, onde geralmente estão os buracos. Entre as opções próximas, geralmente escolhemos ir a um lugar chamado “O Bistrô”, restaurante de um francês que fica próximo ao hotel. A pizza lá é muito gostosa e bem barata e você ainda pode escolher os quatro ingredientes da sua preferência. Esse, como muitos outros lugares, merecia uma filial no Brasil.

No fim de semana, tudo é bem diferente. Sábado é meu dia de ir à comunidade, o que para mim é a melhor parte da semana. Estou aprendendo bastante, especialmente sobre construção. Nesse ritmo, quando voltar ao Brasil já posso construir meu puxadinho…

À noite, a cidade é cheia de opções muito legais: as discotecas (eles usam essa palavra aqui) e barzinhos, que tocam tanto música como estamos acostumados no Brasil quanto música africana (essas últimas são nossa preferência absoluta). Mas isso merece um post à parte…

E, para encerrar a postagem, segue mais um vídeo de brincadeiras guineenses, dessa vez com a participação especial da minha colega estagiária Lia Maria.

Mais no blog
Adicionei duas novas páginas no blog: uma com alguns sites com mais informações sobre a Guiné-Bissau (incluindo o hino) e outra com algumas músicas que fazem sucesso aqui. Ao longo do tempo, vou colocando mais coisas por lá.

A polêmica: “em” ou “na”
Tentando dar fim à polêmica se se diz “em” ou “na” Guiné-Bissau, resolvi, a partir desse post, utilizar a segunda opção. Além de soar mais bonito para se falar de um país, essa é a forma como eles escrevem aqui. Nada mais justo…

A chuva está chegando…
Hoje (15 de maio) é, segundo todos os guineenses, o dia em que cai a primeira chuva do ano. Pelo que dizem, isso não falha aqui. O tempo está realmente nublado e bem menos quente. Acho que o grande momento em que eu vou ver, enfim, a chuva em Bissau vai chegar em poucas horas.

Anúncios