No último sábado, tive duas experiências que me mostraram muito sobre diferentes faces da cultura guineense. Tudo começou de manhã, quando, a convite do Cristóvão (recepcionista do hotel e nosso professor número 1 de crioulo), fui a uma povoação nos arredores de Bissau para assistir a um desafio entre duas tabancas da etnia balanta. Caso não tenha falado anteriormente, “tabanca” é uma espécie de aldeia, a povoação mais comum do interior de vários países africanos, como a Guiné-Bissau.

Depois de mais ou menos um quilômetro na estrada de terra ladeada por mangueiras e bosques de cajueiros abarrotados de frutas, chegamos à tabanca e fomos à casa de uma prima do Cristóvão, construída num estilo muito parecido com as casas de barro do interior do Brasil. Como estava na hora do almoço, a dona da casa nos serviu um pote de arroz com cabaceira, à maneira como se costuma comer nas partes menos urbanas da Guiné-Bissau (inclusive no bairro de São Paulo, onde está sendo desenvolvido o projeto no qual trabalho): um pote único para todos, deixado no chão. Junto ao pote, estavam duas colheres, utensílio que não é utilizado por todo mundo: nessas regiões semi-rurais, é mais comum se comer com as mãos mesmo. Por educação e curiosidade (mais do que fome), resolvi experimentar. Estava gostoso, mas, como não costumo gostar de pratos que misturam doce  e salgado, comi uma única colherada mesmo. Disse que não estou acostumado com a comida guineense e todos foram tão legais que nem fiquei sem-graça por não acompanhá-los na refeição.

Enquanto almoçava, já via várias pessoas (principalmente homens) terminando de se arrumar para a festa. Usavam roupas e chapéus muito coloridos e adereços de todo tipo, com tudo que fosse esteticamente agradável (até embalagens de produtos). Alguns tinham areia grudada no corpo, também como parte da vestimenta.

Mães com filhos presos nas costas se agrupam para ver a festa.

Todas as cores.

Explicando muito grosso modo, o desafio entre as tabancas consiste em duas festas/apresentações simultâneas. Ganha quem conseguir atrair o maior número de “foliões”. Primeiramente, os dois grupos saem andando pela região, batucando e cantando, convidando todos a participar. No momento em que ocorre o encontro entre os dois “adversários”, os tambores e apitos começam a ficar mais altos e constantes e toda a poeira sobe com as pessoas pulando e dançando. Depois disso, formam-se duas grandes rodas, a uns 200 metros de distância (para que o som de uma não chegue na outra). No meio dos círculos, ficam os dançarinos, com as vestimentas coloridas, alguns pulando em cima de grandes caixotes ocos de ferro. Ao redor, estão os foliões “sem compromisso”, batucando (normalmente em galhos) e cantando. Tudo num ritmo muito forte, um batuque constante e muito alto, típico da África. As mulheres dão o tom da música, que não tem letra (apenas um “Ooooo”), mas é cantada de forma incrivelmente sincrônica e, na minha opinião, acaba sendo uma das partes mais bonitas da festa, que é um show de cores e de sons como nunca tinha visto. Isso tudo no meio de um bosque cheio de cajueiros e pailões muito altos. Acho que o vídeo abaixo (uma edição que fiz rapidamente dos vários vídeos que gravei por lá) pode ajudar a entender melhor o que estou tentando explicar.

No mesmo dia, à noite, conheci uma outra face da cultura guineense: fomos convidados para uma mansida, que é como uma festa de aniversário de morte. E é uma festa mesmo, até bem parecida com as nossas do Brasil. Um notebook ligado em um som tocava a música. A rua cheia de gente dançando, praticamente só com a luz da lua.A música era zouk, kuduro, gumbé e rap angolano. As bebidas, vinho de caju e colorange (mistura de cana, café, leite e coco), além de sumo (suco) das frutas típicas daqui (como cabaceira e veludo). E, para evitar a ressaca no dia seguinte, canja de galinha (fica a dica a próxima festa da EACH…).

O vinho de caju, aliás, é uma bebida muito popular na Guiné-Bissau, principalmente na época da colheita da fruta, que acontece agora, em que, para comer caju basta pegar um na árvore mais próxima. O vinho tem um cheiro bem forte de fruta fermentada, característico de algumas partes de Bissau. O gosto… Não é ruim. Mas é mais uma coisa à qual meu paladar brasileiro não iria se acostumar.

O fato de celebrar um aniversário de morte – que para nós pode ser tão estranho – é muito comum aqui. Outra cerimônia interessante é o toka choro, uma celebração que acontece algum tempo depois da morte de algum parente (esse tempo varia de acordo com a etnia, podendo ir de um dia a mais de um ano) e que, como o nome dá a entender, é uma festa meio que para dizer “A vida continua…” Em geral, é feito um tipo de procissão com um porco, boi ou carneiro (ou mais, dependendo da riqueza da família), que em seguida vira o prato principal da festa, que pode durar vários dias.

Só na canja...

Mas, enfim… Peço desculpas aos antropólogos e pessoas que entendem minimamente a cultura africana por essa postagem. Devo ter escrito muita besteira aí em cima. Mas espero que entendam minha boa intenção em querer compartilhar mais esses dois momentos muito marcantes da minha estadia aqui. O primeiro, por poder testemunhar tão vivamente uma manifestação cultural na sua forma pura. Digo isso porque era o único branco do lugar. Era uma festa mesmo, não um produto turístico. E o segundo, pela alegria de participar de uma festa da comunidade, o que nos indica que nos tornamos realmente amigos, mais que “estagiários” ou “colegas de trabalho”. Sinal de que alguma coisa vem dando certo…

P.S.: Quando morrer, quero um toka choro.

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