Depois de várias semanas de trabalho quase ininterrupto, resolvemos (nós, os seis estagiários) tirar finalmente nosso dia de folga. E, correndo para aproveitar enquanto a época das chuvas não começa de vez, decidimos conhecer o Arquipélago dos Bijagós, que [momento Wikipédia], localizado a sudoeste da Guiné-Bissau, é formado por 88 ilhas classificadas pela Unesco como reserva da biosfera.

Expresso Bijagós no porto de Bissau

Sexta às 11 da manhã já estávamos no porto, reservando nossa passagem de 2ª classe no Expresso dos Bijagós, um navio bem enferrujado que é praticamente a única forma de se chegar à Ilha de Bubaque (a principal e mais populosa do arquipélago). A viagem é, sem dúvida, uma das partes mais interessantes do passeio. Tudo começa no porto, com a confusão para entrar no barco. As pessoas – tanto moradores da ilha quanto turistas (em sua maioria, estrangeiros que estão a trabalho no país) – sobem todas por uma rampa com toras de madeira que servem como degraus até o convés. No andar de baixo, ficam a 2ª e a 1ª classes, cheias de cadeiras até-que-confortáveis. Mais embaixo, ficam os compartimentos para a bagagem (que tem de tudo) e a 3ª classe, que é ficar junto com elas mesmos. Como companheiros de viagem, além de muita gente, vacas, galinhas, porcos e bodes.

Canoa em mar aberto

Mais ou menos na metade do trajeto, passamos pelo local onde a água barrenta do mar de Bissau é substituída pela água azul de Bubaque. As ilhas, de diferentes tamanhos, aparecem o tempo todo, a maior parte com cara de desabitada, estilo “Lagoa Azul” ou “Náufrago”. É raro ficar o completamente em mar aberto. Ao longo de todo o caminho, passamos por várias canoas cheias de pescadores.

A chegada em Bubaque é outra cena bem interessante. O tumulto para sair me obrigou a fazer uso da experiência adquirida em três anos de metrô e CPTM. No pier, muitos esperavam seus familiares. Alguns hotéis também enviam um carro para buscar os turistas que já possuem reserva. No nosso caso, como ficaríamos hospedados em um lugar muito próximo do atracadouro, isso não foi preciso. Fomos andando pelas ruas de terra e bastante sujas que nos levavam lá. O ambiente é bem diferente do de Bissau. Além da completa ausência de asfalto – o centro de Bissau tem várias ruas asfaltadas ou sendo asfaltadas agora -, o ambiente é bem mais rural. Há mais galinhas, vacas, cabritos e bodes nas ruas. Praticamente não há infraestrutura urbana.

Mas a ilha é naturalmente muito bonita. Se o potencial turístico da ilha é muito pouco explorado, isso acaba sendo muitas vezes justamente a sua beleza. Ir à Bubaque em um navio de luxo ou passear em um carro turístico tirariam 90% da graça de estar lá. Essa é, aliás, na minha opinião uma das maiores belezas da Guiné-Bissau: tudo que conheço sobre a cultura daqui é espontâneo. Nada produzido e caricato, como costumamos fazer para os “gringos” no Brasil.

O hotel é administrado por uma senhora portuguesa e suas duas filhas. Não tinha muito luxo (para os padrões brasileiros), mas era bem confortável e tinha uma comida muito gostosa (peixe, claro!). À noite, ficamos jogando cartas com umas portuguesas, que nos ensinaram a jogar uma sueca que não tem absolutamente nenhuma relação com a que costumamos jogar em São Paulo. Depois disso, uma passadinha na discoteca, que tem um estilo bem parecido com as de Bissau, exceto pelo fato de haver menos de 15 pessoas. O que no Brasil seria motivo de desânimo por ir a uma balada “miada” aqui é muito diferente. Ninguém parecia se incomodar com o vazio da pista. Como em todos os lugares por aqui, todos dançavam muito bem, de uma forma mais espontânea, por prazer mesmo, e de uma maneira bem diferente da que estamos acostumados nas baladas do Brasil, mesmo nas músicas que tocam lá também.

Na manhã seguinte, fomos à Praia do Bruce, do outro lado da ilha, que estava lá só para nós mesmos. Mais uma vez, vimos a beleza de não estar no meio de um roteiro turístico consagrado. Fomos todos na caçamba de uma camionete cuja porta da frente era fechada por um parafuso preso em um gancho do lado de fora. Junto conosco, vários moradores da ilha que pediam uma “boleia” (carona). Entre eles, um senhor com uma mala grande que desceu no meio da estrada. Assim que o carro foi parando, três crianças saíram correndo da casa de barro ali próxima para abraçá-lo. Era o pai que devia estar voltando de viagem e nos propiciou mais uma cena inesquecível.

Durante todo o trajeto, as crianças saíam correndo atrás do carro, gritando “Brancos!” e dando tchau. Também havia várias palmeiras com folhas abarrotadas de ninhos. Um menino de bicicleta que resolveu apostar corrida com o carro. Os galhos dos cajueiros, que me deram vários tapas na cabeça durante todo o trajeto. E havia o olhar curioso, reservado, mas gentil dos homens e mulheres sentados na frente das casas de adobe.

Mais uma na canoa

A praia, que dava a impressão de ter um horizonte mais distante que o das praias normais, estava praticamente deserta, com exceção de dois meninos que brincavam. Fizemos aquelas coisas normais de se fazer na praia e andamos até uma das pontas, onde havia um gramado e uma canoa aparentemente abandonada. Mas não pudemos demorar muito porque já precisamos voltar para almoçar.

Almoço que, por sinal, não aconteceu em Bubaque, mas em Rubane, a ilha vizinha e ainda mais paradisíaca, com um mar azul e transparente o suficiente para que fosse possível ver o chão quando havia mais de um metro de profundidade. Na ilha de Rubane, o turismo é mais bem explorado. Já existem hotéis mais luxuosos, no estilo resort. Almoçamos em um deles e passamos a tarde na praia, que também era praticamente só nossa.

Tocando muito na mandela. No chocalho, Orion.

À noite, novamente no hotel de Bubaque, vimos a apresentação de um grupo de artistas de rua que tocavam uma música parecida com reggae, mas com mais influências africanas. Foi praticamente um show particular para os dez brasileiros que estavam ali. O principal instrumento usado por eles era a mandela, parecido com berimbau com três cordas e um tambor embaixo. Depois do pequeno show, passamos um bom tempo com os artistas, que nos ensinaram a tocar a mandela, que, por incrível que pareça, não é um instrumento difícil de aprender. Até consegui fazer a sequência de cordas-batuques em uma boa velocidade, mas fez falta uma boa dose de ginga para ficar parecido com o modo como ele fazia. Bom… Provavelmente nunca mais vou ver uma mandela mesmo…

Domingo à tarde já estávamos de volta em Bissau. Ainda conseguimos assistir um show da Eneida Marta, uma cantora de música guineense moderna que faz muito sucesso no exterior. O show, realizado aqui na Praça dos Heróis Nacionais (na esquina da rua do hotel), foi um momento bonito. Não só pelo fato de serem raros eventos desse tipo em Bissau, mas por poder ver a praça finalmente iluminada durante a noite. Praça essa que, mesmo sem iluminação, fica cheia de crianças com seus pais até quase de madrugada. Dessa vez, eram só luzes do palco, que duraram uma noite. Mas ainda tenho esperança de, até a hora de ir embora, poder ver a praça iluminada pelos postes ociosos que ficam ao seu redor. E, quem sabe, daqui a alguns anos, saber que o palácio presidencial foi reconstruído e se tornou, novamente, um motivo de orgulho dos guineenses, não mais uma sombra do passado no centro de Bissau.

Mais um sucesso

Aproveitando o post cheio de música, adicionei na Top Bissau mais um sucesso guineense: “Laska de Trás”. Outra que estaria no topo das paradas brasileiras se tocasse por lá…

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