Andar na rua sem conseguir ser apenas “mais um na multidão” é uma experiência nova para mim. Em um país com a quase totalidade da população negra, meu bronzeado de escritório já entrega que sou de fora, onde quer que esteja. Apesar da situação às vezes desconfortável de estar chamando atenção por mais que eu tente passar despercebido, não tenho do que reclamar: os guineenses, como os brasileiros, têm uma relação muito cordial com os estrangeiros e respeitam bastante as diferenças culturais. Além do mais, a presença de estrangeiros em Bissau não é nada estranha, pela enorme quantidade de projetos de cooperação internacional no país, principalmente da ONU, mas também da União Europeia (especialmente de Portugal), da China e da Líbia. Não por acaso, a palavra em crioulo para “estrangeiro” é “coperanti”.

A cooperação internacional – assim como o trabalho de organizações filantrópicas, sobretudo ligadas a igrejas – tem uma importância central para o país, que teve a economia destruída pela guerra civil nos anos 90. As ruas de Bissau são cheias carros e prédios abandonados que um dia foram importantes centros de lazer ou edifícios do governo. É o caso do único cinema da cidade, próximo ao hotel onde estou, que hoje é um grande prédio deserto, usado como depósito por alguns artesãos. Sem medo de exagerar, é possível dizer que o país está sendo construído agora, praticamente do zero. Algumas coisas são mais visíveis, como as ruas que estão sendo asfaltadas e a iluminação pública que, bem aos poucos, começa a ser reativada. Outras nem tanto, como a reforma do Estado, com a tentativa de recolocação profissional dos servidores afastados, que tem o apoio da União Europeia. Em qualquer situação, uma coisa é clara: não existe uma política pública que não conte com o financiamento ou apoio técnico externo. E se, por um lado, isso acaba sendo essencial para que o país inicie um processo de desenvolvimento mais substancial, também acaba gerando como efeito colateral a perda de soberania.

Os chineses estão investindo pesado na Guiné-Bissau devido ao interesse pelos direitos de pesca no litoral do país. Estão construindo, inclusive, a nova sede do governo e dos ministérios. Tudo isso usando mão-de-obra e materiais vindos exclusivamente da própria China. Assim, não enfrentam a mesma dificuldade que estamos tendo no projeto em que trabalho, de falta de alguns materiais, já que praticamente tudo é importado, o que também faz o preço subir bastante. Constroem rápido, realmente, mas não incentivam em nada a economia do país.

Mas, apesar da sua reconhecida eficiência, os chineses em geral não são bem vistos pelos guineenses, talvez por serem uma das culturas mais diferentes da local. A Rosa, camareira aqui do hotel, já declarou guerra aos vários chineses que se hospedam aqui. É difícil conversar mais de cinco minutos com ela sem que ela se lembre de dizer como os chineses são bagunceiros e “porcos”. Não sei dizer se é verdade, mas que ela não gosta deles, não gosta.

Entre os estrangeiros, porém, a maior comunidade parece ser a libanesa, que domina o comércio, inclusive o hotel onde estou e todas as lojas vizinhas (negócio de família). Entre eles, costumam utilizam o francês para se comunicar, mas a maior parte já fala o crioulo razoavelmente.

Com a minha convivência com os libaneses, percebi que aquela imagem de passividade que se tem da mulher muçulmana não é necessariamente real. Pelo contrário. Há um mês, chegou do Líbano a Dona Alice, esposa do dono do hotel, recebida com entusiasmo pelos funcionários. E logo que ela chegou, as mudanças já começaram a acontecer. O Jamal (o “patron”, como é chamado pelos funcionários), que sempre andava esculachado pelo hotel, estava com o bigode feito impecavelmente e a camisa limpa e abotoada. O café da manhã deu um “upgrade” no cardápio, os corredores ficaram mais limpos e nosso quarto ganhou até uma nova decoração, em estilo árabe.

Mas, voltando aos assuntos de maior importância…

Líbia Hotel, um dos negócios de Gaddafi em Bissau

Os líbios, já há algum tempo, têm grande influência e popularidade na Guiné-Bissau. Aqui, Gaddafi é visto como um herói da resistência africana, e um homem “muito bom para a Guiné”. De fato, ele foi o responsável por vários investimento no país nos últimos anos, devido ao seu projeto de islamização da costa oeste da África. Existem fortes boatos, inclusive, de que foi ele o financiador do golpe de Estado de 2009, que matou o presidente Nino Vieira. Lembrando que a Guiné-Bissau está cercada por dois países de governo islâmico – Senegal e Guiné -, mas, apesar de ter uma grande parcela de sua população muçulmana, ainda é um Estado laico, embora atualmente tenha um presidente muçulmano.

Centro de Formação Profissional Brasil - Guiné-Bissau

O Brasil também possui muitos projetos de cooperação na Guiné-Bissau, assim como nos outros países africanos de língua portuguesa (os PALOPs), que concentram 70% dos projetos de cooperação brasileira na África. Entre eles, estão o Centro Cultural (que fica anexo à Embaixada), o Centro de Formação Profissional (gerido pelo SENAI), uma parceria para a estruturação das Forças Armadas (junto com Angola) e o apoio à estruturação do equivalente à nossa Polícia Federal.

À parte da cooperação internacional, a realidade do Brasil também é bem conhecida através da Record Internacional, que é um dos principais canais de televisão do país. Embora a televisão não seja algo tão presente nas casas guineenses quanto nas brasileiras, programas como as novelas “Mutantes” e a versão brasileira de “Rebelde”, o Cidade Alerta, o Programa do Gugu e o “Programa do Rodrigo (Faro)” são bem populares. Não é de surpreender, assim, que boa parte dos guineenses relacione o Brasil a mulheres semi-nuas e cidades violentas. Uma vez, em uma padaria, uma das minhas colegas perguntou a um menino de uns cinco anos o que ele conhecia do Brasil. A resposta dele foi “Ladrões”.

Apesar disso, a imagem do Brasil e dos brasileiros por aqui é muito boa. O tempo todo, pessoas vêm puxar assunto por reconhecerem, pelo nosso sotaque, que somos brasileiros (normalmente guineenses que fizeram a faculdade lá e retornaram). A nacionalidade também ajuda a conquistar a simpatia – e alguns descontos – dos comerciantes. É comum ouvir as pessoas dizerem que somos “povos irmãos”.

O grande problema é que eu sempre tenho que falar para deixar explícita minha nacionalidade. Vários vendedores já me cumprimentaram com “Bonjour! Ça va?” ou “How are you?”. Daí saem respostas interessantes, do tipo “Fine, mas sou brasileiro”. Também é comum que pensem que sou português, o que trato de negar logo – por motivos óbvios, os portugueses não são exatamente o povo que mais conquista a simpatia dos guineenses.

Como já disse, a influência americana – cultural e econômica – não é, aparentemente, tão forte quanto no Brasil. É claro que é comum ouvir música e falar de filmes norte-americanos (quando falo meu nome, muitos dizem “Leonardo di Caprio”), mas aqui não é como no Brasil, onde é quase impossível ouvir 5 músicas seguidas sem que uma seja de lá. Apesar disso, existe uma grande febre “Obama”, que é uma estampa muito comum em camisetas e até jóias (já vi um brinco com a foto dele). Com a guerra contra a Líbia, a popularidade do presidente caiu muito. O sentimento que predomina agora com relação a Obama é o de frustração. E as camisetas de Gadaffi continuam a ser vendidas…

É interessante ver como a identidade africana é forte por aqui. Os jornais e os rádios dão muito destaque às notícias da África, especialmente dos PALOPs, que têm uma forte identificação entre si. Os livros de história das escolas também dão um grande destaque à história da África, a contando do ponto de vista dos africanos – e não dos europeus, como os nossos costumam fazer. Acho que isso é resultado dos movimentos pela independência, relativamente recentes.

Há quase um mês, ocorreu a Semana da África, que é comemorada nas escolas e nas ruas, por movimentos pan-africanistas, que ainda têm força e apelo. A Copa do Mundo também contribuiu para reforçar essa identidade “continental”. Não por acaso, a música “Waka-waka” ainda é muito tocada no rádio e nas discotecas, onde também se ouve bastante música africana “de verdade”, como o gumbé, zouk, kuduro e rap angolano.

Branco pelelê
Existe uma brincadeira muito comum na Guiné-Bissau de chamar os brancos de “branku mpelele” (branco pelelê) – até mesmo desconhecidos na rua. E, por mais estranho que pareça, não existe nada de agressivo ou maldoso nisso. O que se espera é que você responda chamando a pessoa de “pretu mbao”. Daí todo mundo ri e segue em frente. A situação é bem estranha para nós, brasileiros, que costumamos (até por causa de todo nosso passado) encarar a cor da pele como um tabu. Mas com o tempo a gente se acostuma…

Mais uma música
E, para terminar mais um tópico musicalmente, segue o vídeo de um show realizado no centro de Bissau em 2008. Vale a pena ver não só pela música, que é muito boa, mas também para sentir um pouco o clima do país. Na página “Top Bissau”, deixei uma versão completa da música.

Reta final
Recebi ontem a confirmação da minha partida de Bissau: 10 de julho, data do fim do meu contrato. Isso significa que hoje, completando dois meses na Guiné-Bissau, começo também meu último mês por aqui, que vai ser cheio de trabalho, com a retomada da obra e a nova coordenação do projeto. E, também, como sempre, cheio de surpresas.

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