Movimento na parte externa do Bandin, o mercado popular de Bissau.

Depois de uma longa ausência – dessa vez por causa de problemas técnicos com meu computador -, consegui finalmente ter um tempo de atualizar esse blog, cada vez mais descrente da promessa de fazer mais cinco postagens antes de voltar para o Brasil.

O assunto desse post tem relação com uma parte da minha rotina que, embora sempre presente, nunca foi tratada propriamente nesse blog: dinheiro e, principalmente, a forma como ele é usado – mercados, produtos, salários e coisas do gênero.

O Franco CFA, também chamado de “franco CFA”, “ceifa” ou “franco”, é a moeda da Guiné-Bissau e de outros 14 países do centro-oeste africano, a maior parte deles ex-colônias francesas. Enquanto em países do oeste, como Guiné-Bissau e Senegal, utiliza-se o Franco da África Ocidental (XOF), nos países localizados mais ao centro do continente, a moeda é o Franco da África Central (XAF). Embora as duas tenham o mesmo valor monetário, uma não é aceita na área de circulação da outra. É um pouco estranho, mas pelo menos é o que a Wikipédia diz.

Para se ter um parâmetro para comparação, mil francos CFA equivalem a aproximadamente R$ 3,50. E, embora a moeda esteja bem desvalorizada, tem se mantido estável. Desde que cheguei, a cotação do dólar (que tenho que consultar todo dia, já que essa é a moeda utilizada como padrão na cooperação internacional brasileira) variou entre 443 e 467 FCFA, o que representa uma oscilação relativamente pequena.

Nas minhas primeiras semanas, a pouca familiaridade com a moeda e a falta de parâmetro para definir o que era caro ou barato foram uma grande desvantagem minha nas negociações, já que aqui, como no Brasil, os preços para estrangeiros costumam ser bastante superiores. No entanto, desde então fiz vários progressos na arte de barganhar, que para mim é muito mais uma questão de sobrevivência que de gosto. O fato de já conseguir me comunicar em crioulo vem ajudando bastante, acho que não só pelo fato de conseguir me fazer entender melhor, mas principalmente por mostrar que não sou um gringo tão novato assim.

Como já disse em outro post, meu maior desafio no trabalho vem sendo conciliar as normas de compras e prestação de contas do governo brasileiro e do PNUD com a realidade local. E isso vai muito além da falta de clareza nos orçamentos e faturas fornecidos pelas empresas. Esse problemas nós já solucionamos em parte fornecendo modelos que nós mesmos preenchemos e só pedimos para que os vendedores assinem e, quando possível, carimbem. A outra questão problemática tem a ver com a forma como fazemos a tomada de preços, que tem que seguir os procedimentos tradicionais, com a necessidade de se colher três orçamentos. Com relação a isso, alguns problemas são: frequentemente não há mais de um ou dois fornecedores de um determinado produto; a qualidade do material é bastante variável, o que nos impede de tomar uma decisão com base somente no preço; e, principalmente: a cultura da negociação é muito forte aqui, o que torna muito difícil de explicar aos vendedores a lógica da tomada de preços (e que, para que eles sejam escolhidos, têm que oferecer o menor preço possível ainda no momento da tomada de preços). O meio termo que encontrei na compra que realizei na semana passada no Bandin (uma espécie de Brás de Bissau) foi o de barganhar no momento em que pedia o orçamento. Funcionou em parte: um deles, no momento em que eu estava indo embora, avisou: quando você vier comprar, nós podemos fazer desconto.

E, falando em Bandin, passear no meio das barracas desse mercado é uma das experiências mais interessantes que Bissau pode proporcionar. O Bandin é uma grande feira que mistura lojas mais convencionais e um grande número de barracas feitas de palha e cibe (uma madeira muito utilizada aqui). Lá é possível encontrar de tudo: roupas tradicionais e “modernas”, tecidos, comida, eletrônicos, DVDs, materiais de construção… Na grande área atrás das lojas, onde ficam as barracas, os corredores são estreitos e escuros – o espaço de circulação é coberto com palha, tecido e papelão – e o chão é irregular, todo feito de pedra. Em alguns espaços mais abertos, os comerciantes costumam fazer chá ou cozinhar o arroz na hora do almoço. O movimento de pessoas é grande desde a manhã até o fim da tarde, quando o comércio começa a se recolher.

Perdido no caos.

Outro local de compras muito bom de se conhecer é o que chamamos de “feira dos senegaleses”, que fica próximo ao porto de Bissau. Lá está o comércio mais turístico, de artesanato e outros produtos típicos, tanto em barracas como em lojas, como a que gerou a foto ao lado.

As mercearias e pequenos supermercados – normalmente propriedade de libaneses – também são lugares interessantes. Como praticamente tudo é importado, neles é possível encontrar produtos de vários lugares do mundo, principalmente da Europa, de países árabes e de outros países da África mais desenvolvidos economicamente, como o Senegal, de onde vêm os produtos da Nestlé, como o Leite Nido (Ninho) e o Nescafé. Entre as várias coisas curiosas que já comprei, destacam-se uma bolacha romena, Coca-Cola e Halls com a embalagem em árabe. Também já experimentei refrigerante de várias marcas e sabores, incluindo manga, abacaxi (Fanta Ananás) e limão com morango (esse último tão ruim que não consegui beber a latinha inteira). Consegui encontrar Guaraná Antárctica e Pepsi apenas uma vez.

A forma mais tradicional de comércio em Bissau, porém, são as feiras livres, presentes em diversos lugares da cidade. Nelas, são vendidas frutas, verduras e legumes, além de alguns enlatados e, claro, arroz e peixe, que são a base da culinária guineense. Uma coisa que chama a atenção ao olhar as barracas com gêneros alimentícios é o pequeno tamanho de produtos como tomate, limão e repolho, que parecem miniaturas daqueles que eu estava acostumado a ver. Um outro produto muito vendido nas feiras é o kuduro, que além do nome do estilo musical, é o pão tradicional guineense, parecido com uma baguete, mas com a consistência mais dura.

Prato com peixe e arroz guineense

O arroz que é consumido aqui também é diferente do que costumamos comer no Brasil: é menor e é servido mais empapado. Segundo me disseram, esse é tipo de arroz usado em muitos países como ração e que, por muitos anos, foi mandado por outros países para a Guiné-Bissau, como produção excedente. Bem ou mal, acabou caindo no gosto popular e se tornando parte da culinária local. E, ao contrário do que pode parecer, é muito gostoso. Meu novo hábito de fazer mais ou menos metade do prato com arroz surgiu por causa dele.

O arroz é, por sinal, a solução alimentar (e praticamente o único alimento) de muitas – senão da maior parte – das famílias guineenses, que têm uma renda mensal e 20 e 30 mil FCFA (70 a 105 reais, aproximadamente, com um poder de compra semelhante). E esse grupo inclui também alguns servidores públicos e professores que trabalham em tempo integral. Para eles, a alimentação é composta basicamente pelo arroz com caldinho Maggi (vendido em barraquinhas espalhadas por toda a cidade) e um ou outro legume ou peixe misturado.

Outdoor da MTN na Praça dos Heróis Nacionais. Sinal dos tempos...

A situação é bem complicada, mas as coisas tendem a melhorar. A estabilidade política, ainda que frágil (faz pouco mais de um ano desde a última tentativa de golpe) vai, certamente, contribuir para incentivar os investimentos, vindos tanto de dentro quanto de fora do país. E as novas gerações, com maior acesso à educação (mesmo considerando a precariedade da maior parte das escolas), também têm mais condições de aproveitar todas essas oportunidades que seus pais. Claro que as coisas mudam em uma velocidade muito mais devagar do que nós gostaríamos. Mas acreditar que as coisas vão ser melhores daqui para frente serve, pelo menos, para terminar esse post de uma maneira mais feliz.

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