Início de jogo no Bairro São Paulo

Na tarde do último sábado, participamos de mais um momento marcante na comunidade São Paulo: a “inauguração” das bolas e coletes dados pela Fundação Gol de Letra para a realização das oficinas de esportes na nossa futura escola. E, para apresentá-los à comunidade, a Associação Amizade organizou dois jogos de futebol no campo terra que fica do lado da obra: um masculino (com dois tempos de 20 minutos) e um feminino (com dois tempos de 15).

A ocasião era tão especial que até dei minha participação durante os 20 gloriosos minutos do primeiro tempo. Depois de uma atuação essencial para garantir que o time tivesse 11 jogadores em campo, tive direito até a entrevista e “tchauzinho” pra galera.

O lado bom foi que quebrei um mito: o de que todo brasileiro é bom de bola. Mas, besteirol à parte…

O futebol é, sem dúvida, o esporte mais popular da Guiné-Bissau. Isso apesar da pouca tradição do país no esporte: a Guiné-Bissau nunca participou nem mesmo da Copa das Nações Africanas e parece distante de chegar a uma Copa do Mundo. Por esse motivo, a vitória da seleção guineense sobre o Senegal na fase regional das eliminatórias para os Jogos Africanos (equivalentes ao Jogos Panamericanos) foi recebida com tanta surpresa. No sábado em que o jogo foi realizado, ainda no primeiro mês em que eu estava aqui, os bares com televisão estavam lotados. Foi uma grande alegria, mas que não durou muito. Aparentemente, a seleção guineense possuía um jogador com 25 anos em uma competição que deveria ser sub-23. Consequentemente, os jogos contra o Senegal foram anulados e a seleção guineense, eliminada. Quem vai jogar com a Guiné-Conacri (a vizinha do sul) na semana que vem vai ser o Senegal mesmo.

Assistir ao futebol europeu nos bares com televisão, que cobram pelo serviço é um programa bem tradicional dos guineenses. Como os times nacionais ainda estão engatinhando em termos de profissionalização – e como não há uma cobertura jornalística efetiva para os jogos -, os guineenses têm mais identificação com os times europeus, principalmente de Portugal, como o Porto, o Benfica e o Sporting. Quando se fala em seleção, porém, o Brasil é a preferência absoluta. Como já disse outras vezes, é impossível passar mais de meia-hora andando por Bissau sem ver alguém vestindo uma camisa da seleção brasileira, ou que pelo menos faça alguma referência ao Brasil. Os guineenses também acompanharam de perto o Brasil na Copa de 2010 e a eliminação para a Holanda também foi uma frustração aqui (e eles também xingam o Dunga…). Os jogadores de futebol brasileiros são bem conhecidos, especialmente o Ronaldinho Gaúcho (ou simplesmente o “Gaúcho”), que provavelmente é o maior ídolo dos guineenses quando se fala em futebol, junto com o Eto’o e o Drogba. Mesmo aqueles que ainda não foram para o futebol europeu – como o Neymar – já começaram a ser badalados por aqui, o que torna bem mais fácil para mim explicar de onde sou: da cidade “do time do Neymar”.

Mas, apesar de futebol profissional ser praticamente uma coisa de estrangeiro na Guiné-Bissau, os guineenses também têm uma grande paixão pelo esporte e sabem torcer – e jogar – muito. Os bairros de Bissau estão cheios de quadras de terra com gols feitos de cibe. E, nas tardes de sexta-feira, as ruas do centro da cidade (que, entre as vias menos movimentadas, são as únicas que têm asfalto) ficam cheias de meninos jogando bola: pés descalços, gols de chinelo ou pedra, bola meio “baleada”. Se não fosse por falarem crioulo e chamarem “gol” de “golo”, poderia ser em qualquer cidade brasileira.

Gostaria muito de ver a seleção brasileira fazer um jogo aqui no estádio Lino Correia. Sem dúvida, seria um momento inesquecível para mim e, principalmente, para todos os guineenses que admiram nosso futebol e o nosso país. Uma vez, conversando sobre isso com um guineense, perguntamos como seria se o Brasil viesse jogar aqui. Ele só respondeu “Gente morre”. E talvez nem estivesse exagerando tanto assim…

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