Pois é… Hoje falta menos de uma semana para eu me despedir de Bissau. Na madrugada do próximo domingo para segunda (10 para 11 de julho), pegarei o avião com destino a Lisboa, sem saber quando – e até mesmo se – um dia voltarei a esse país onde passei momentos inesquecíveis e que vão me marcar para o resto da vida. Momentos como os que vivi no último fim de semana.

Resolvemos ir para Varela, uma cidade no norte do país, na fronteira com o Senegal, que é um tipo de Ubatuba para quem mora em Bissau, o destino preferido dos guineenses nos feriados. Para que nós seis (digo, os seis estagiários) conseguíssemos ir juntos até lá, a melhor forma foi alugarmos um Sept-Place, um tipo de carro com dois bancos de trás (com capacidade, portanto, para sete passageiros, além do motorista). Chamamos o Abdulai, motorista que, além de ter o nome legal, já era conhecido dos nossos amigos brasileiros e cobrou um preço bem razoável para nos levar.

Depois de mais ou menos uma hora depois de nossa saída de Bissau, começamos a passar pelas várias pontes que atravessam os diversos estuários do litoral – completamente recortado – do país, a maior parte delas cobrando um pedágio de 250 FCFA, que provavelmente é fundamental para que elas fiquem tão conservadas, com aparência de recém-construídas.

Na ponte do rio que cai

Mas fomos nos distanciando de Bissau, a estrada começou a piorar, o que também aconteceu com a última ponte antes de chegarmos a Varela, que atravessa um pequeno córrego. Antes de passar, é necessário que sair do carro para ver se está tudo no seu devido lugar. E, mesmo tendo isso garantido, a ponte não transmite muita confiança. É necessário que o carro passe por duas madeiras, como um trem nos trilhos. Na dúvida, preferimos atravessá-la a pé.

Depois da ponte, mais estrada. Bom… Não falei antes, mas Varela é uma praia bem badalada na época da seca. A época das chuvas já começou e o acesso à cidade começa a ficar mais difícil, já que a estrada é de terra. E o inevitável aconteceu: o carro atolou na lama. O jeito foi sair e empurrar. E o resultado, bem previsível: calça de lama.

Mas, apesar das dificuldades, a estrada tem uma paisagem muito bonita. Os pedaços com grandes vazios parecidos com savanas se revezam com partes de mata mais fechada, com casas rurais guineenses, redondas com o telhado de feno (não de aluzinco, como é mais comum em Bissau). Em Varela, as casas seguem o mesmo estilo, apenas estão mais próximas umas das outras. Chegando na pousada onde ficamos hospedados (na qual nós éramos os únicos hóspedes), apenas almoçamos e partimos para a praia, seguindo a estrada de terra até onde foi possível com o carro. Depois de mais uns 10 minutos a pé, já conseguimos ver o mar e o que provavelmente é a praia mais bonita que já conheci. Praticamente vazia.

Amigos com o monstro do lago

Depois da chegada de dois amigos brasileiros que têm um 4×4, fomos de carro explorar um dos extremos da praia. Ali, mais uma surpresa: a maré baixa havia deixado vários lagos em uma faixa muito grande de areia. A mais ou menos 500 metros de nós, várias crianças brincavam, parecendo andar na água, por estarem em uma parte onde a areia estava mais alta. O fundo dos “lagos” era de húmus, bem preto, e fazia o pé afundar, como uma areia movediça. Ficamos algum tempo conversando com as crianças, que começaram a se enturmar depois que o Ari – um desses nossos amigos brasileiros – sujou toda a cara de lama e começou a correr atrás delas.

Mais para trás, uma grande faixa de areia estava coberta por caranguejos que, quando sentiam nossa aproximação, saíam correndo desesperadamente para seus buracos. Foram uns dez minutos de diversão, especialmente quando dois caranguejos começavam a disputar um buraco ou quando algum não conseguia encontrar nenhum lugar desocupado. Mas parei de torturar os pobres crustáceos e seguimos em frente.

O outro lado da praia

Fomos de carro até o outro extremo da praia. A essa altura, vários bois já dominavam a areia, saídos não sei de onde. A paisagem do outro extremo era bem diferente. No meio de um bosque que já terminava praticamente no mar, estavam algumas construções em estilo português, abandonadas há alguns anos, que faziam lembrar muito o cenário do filme Bruxa de Blair. No caminho, passamos também pelos destroços de um hotel cuja construção foi abandonada. E tudo isso, apesar de tão desprezado, só deixava tudo mais bonito.

Na manhã seguinte, eu e o Marco resolvemos colocar um plano antigo em prática: desviar um pouco o caminho de volta e conhecer algumas cidades do interior do país. Nossas colegas, receosas de como estaria a estrada, já que tinha chovido bastante na noite anterior, não quiseram nos acompanhar e preferiram voltar com o 4×4 dos nossos amigos.

Mas lá fomos nós. E como diria Capitão Nascimento: “Só podia dar merda” (a citação tem se aplicado bastante no nosso dia-a-dia…). Atolamos. E com gosto. Depois do que deve ter sido quase uma hora em uma estrada vazia, com o sol a pino e tentando todas as alternativas imagináveis para tirar o carro do buraco, fomos salvos por um francês que viajava com a família em um 4×4. O Abdulai teve a ideia de cortar os dois cintos de segurança dos bancos de trás para usar como corda. E o pior é que deu certo. Nisso, descobrimos que o francês já havia morado dois anos no Rio e falava bem português.

O Abdulai, com medo de atolar de novo, saiu correndo com o carro e acabamos o perdendo de vista. Depois de alguns metros a pé, cruzamos com um grupo de mulheres típico dessas estradas do interior da Guiné-Bissau, com bacias na cabeças e filhos nas costas. Foram logo puxando assunto, muito simpáticas, e fizeram questão de lavar os nossos chinelos, que estavam cobertos de lama, nessa atitude de mãe que é muito típica também das mulheres daqui. Depois de um tempo de conversa, nos despedimos e continuamos andando.

Amigas da estrada

Boleia santa

Mais um pouco de caminhada sem ver nem rastro do Abdulai e passa por nós um carro dirigido por uma freira. O Marco, que deve ser a pessoa mais cara-de-pau que eu já conheci, foi logo pedindo boleia (carona) e eu fui no embalo. E lá fomos nós pendurados atrás do carro da freira, eu me segurando no estepe e dizendo todos os palavrões que passavam pela minha cabeça (espero que falar palavrão em carro de freira não seja pecado). Mas a mulher, peruana, era boazinha nos modos, mas uma fera no volante e, para completar, tivemos que passar por aquela ponte de resistência duvidosa. Passado o susto, lá estava o Abdulai nos esperando, junto com os “zeladores” da ponte, que pedem uma pequena contribuição para que mantenham tudo em ordem.

Mais estrada e chegamos à nossa primeira parada: São Domingos. A cidade, com algumas ruas asfaltadas, lembra um pouco o centro de Bissau, só que com uma aparência mais calma. Fomos a um pier meio destruído para tirar umas fotos. O Abdulai nos avisou que a água ali tinha lagartos (isto é, crocodilos). Isso, em si, já seria aventura o suficiente, mas ainda contamos com o apoio de um menino endiabrado, que, vendo nosso desequilíbrio na ponte começou a imitar uma galinha, jogar pedras no Marco e dar uns socos em mim. Criança peste mesmo, como é bem comum no Brasil, mas nunca tinha visto aqui. Como nossas ameaças não o intimidaram muito, tiramos nossas fotos e fomos embora, torcendo para que ele caísse da bicicleta (eu sei que era uma criança, mas uma criança muito pentelha…). Até hoje, desconfiamos que ele era um brasileiro infiltrado, até porque falava português perfeitamente, o que é bem incomum entre as crianças daqui.

A estrada para Cacheu, nosso destino seguinte, também era uma atração à parte. As copas das árvores que acompanhavam a via formavam um túnel que se estendia por mais de um quilômetro. O sol já estava mais fraco quando chegamos em Cacheu. Nossa primeira parada foi no pequeno porto, por onde saíram alguns dos africanos escravizados no Brasil – é esquisito, mas vi isso escrito como se fosse um atrativo turístico em um muro da cidade. No lugar, porém, não há nada que remeta a isso. É apenas uma plataforma com capacidade para três barcos pequenos.

Estátua no forte de Cacheu

Um pouco distante, estava o forte de Cacheu, onde tivemos que pagar um “ingresso” para que o dono da chave pudesse abri-lo. O forte é bem pequeno, mas possui estátuas metálicas bem impressionantes feitas pelos portugueses para homenagear os “grandes nomes” da colônia, como o primeiro governador e o líder da luta contra a independência (que, pelo que me disseram, foi um dos maiores sanguinários que já passaram pela África). As estátuas, apesar de parcialmente destruídas, ainda guardam uma aparência ameaçadora e inquisidora, pelo tamanho e a postura dos “homenageados”.

Festival em Cacheu

Ao lado do forte, estava tudo sendo preparado para o início de um festival cultural do qual participariam vários grupos musicais de diversos estilos, que se apresentariam no palco de costas para o mar. No gramado em frente, os músicos já se preparavam, entre eles um grupo chamado 8 de Março, formado apenas por mulheres (algumas carregando os filhos nas costas). Algumas crianças que brincavam ali já foram se enturmando conosco, perguntando o nome, querendo sair nas fotos e jogar futebol. Infelizmente, tivemos que ir embora antes de que os grupos começassem a se apresentar, já que começou a chover e as atrações estavam atrasadas.

Voltamos no pôr do sol, que deixava a paisagem ainda mais bonita. Mais ou menos às sete e meia, chegamos em Bissau. O carro do Abdulai, completamente sujo de barro por dentro e por fora, sem os cintos de segurança do banco de trás e com a porta de trás completamente desmontada (sem querer, quebrei o mecanismo de subida e descida da janela tentando desemperrá-la). Nós, cansados e com fome (nos alimentamos de bolacha de chocolate durante o dia inteiro), mas com a sensação de termos passado por mais momentos inesquecíveis nesse país que, mesmo depois de três meses, ainda nos trás novas surpresas a todo momento.

Anúncios